Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos

O HOMEM DE VARGINHA

A história de Edgar ET, o homem que conquistou a Copa

 

O técnico Rafael iria anunciar os convocados para a Seleção Brasileira daquele ano. A imprensa de todo o mundo estava presente. Havia aquela expectativa no ar. As TVs mandaram equipes para a casa dos que seriam convocados, para filmar a reação do atleta e de sua família ao momento mais importante de suas carreiras e, para alguns, de suas vidas.

Tinham aqueles jogadores óbvios, cuja comemoração não era tão forte, pois eram unanimidades nacionais. Mas estes eram pouco mais de meia dúzia, e seriam convocados vinte e seis jogadores que atuavam em qualquer lugar do mundo.

Ele convocou por posição, um a um. Neymar, Vini Junior e por aí afora, dos clubes mais diversos, Real Madrid, Barcelona, Bayern etc.

Depois de vinte e cinco escolhidos, a polêmica já estava instalada. Críticas e elogios ao técnico pipocavam aos quilos. Chegou a hora do vigésimo sexto. Havia muita expectativa, porque ainda tinham muitos convocáveis e apenas um nome seria dito.

Silêncio.

Então o técnico Rafael anunciou:

— Edgar Silva, do Boa Esporte Clube de Varginha, MG.

Um silêncio ainda maior tomou conta do ambiente.

Nenhum dos repórteres conhecia o tal Edgar. As reportagens de TV não estavam preparadas para um desconhecido. Ninguém fazia a menor ideia de quem era. Mas precisavam colocar algumas informações sobre o novo atleta da elite nacional: peso, altura, trajetória. Só sabiam o que o técnico falou, e foi muito pouco.

Em uma oficina na cidade de Varginha, onde Edgar trabalhava, os empregados assistindo à convocação a princípio ficaram mudos, olhando para a TV. O Boa com um jogador na Seleção, e o Edgar do almoxarifado era o convocado. Não fazia o menor sentido.

O próprio Edgar achava que era outro Edgar, ou que o técnico tinha se confundido. Assistiram várias vezes e ninguém mais trabalhou naquele dia. Todos comemorando em grande estilo. O patrão mandou trazer barris de chope, pastéis, coxinhas e esfihas. Uma festa inédita tomou conta primeiro da oficina. Depois, pouco a pouco, Varginha inteira comemorava.

O Edgar estava apavorado. Era o mais contido nas comemorações. Achava que a qualquer momento iria acordar do sonho ou que viria uma retratação da comissão técnica.

Em menos de uma hora os repórteres estavam em peso na frente da oficina, na sede do Boa Esporte Clube e na casa do Edgar, assustando sua mulher e filhos, que não acompanharam a convocação e de nada sabiam.

O Boa era um time da quarta divisão brasileira. O máximo que conseguiu em toda sua existência foi chegar à segunda divisão em 2017, mas durou apenas uma temporada.

Orçamento barato, jogadores semiprofissionais. Muitos tinham outro emprego na pequena cidade.

Nos dias que se seguiram, a cidade e o clube entraram no radar das emissoras de rádio, TV, jornais e influencers da internet. Ninguém falava do Neymar. O assunto das rodinhas de boteco do Brasil inteiro era o Edgar.

A vida dele foi esmiuçada. Equipes de repórteres foram à pequena Carnaíba, cidade de Pernambuco de onde ele veio, e as notícias não eram o que se esperava.

Ele não tinha um passado de criança prodígio com a bola. Lá em Carnaíba, onde nasceu, ninguém lembrava dele jogando um super futebol. Seus amigos de infância eram crianças comuns, para quem o futebol era uma brincadeira entre tantas outras.

Como o técnico teria conhecido Edgar? Ninguém sabia ainda.

Em uma entrevista, na qual achava-se que ele iria desconvocar Edgar, o técnico explicou que foi ao campo do Boa Esporte Clube, assistiu o rapaz jogando, gostou do arranque dele e resolveu convocá-lo.

Os especialistas conseguiram imagens de Edgar jogando e discutiam nas TVs, todos sem entender. Realmente ele tinha um bom arranque, mas isso parecia melhor porque os adversários eram quase amadores.

Enfim, estava convocado e ponto final.

Edgar Silva chegou à Granja Comary, em Teresópolis, RJ, no dia e hora marcados. Foi de ônibus para a cidade e lá pegou um táxi. Chegou com a malinha, encontrou o grupo e foi muito bem recebido. Os grandes astros estavam curiosos. Logo ele fez amizade com todos.

O técnico, o preparador físico e outros profissionais vieram e fizeram uma reunião com os jogadores.

Explicaram em linhas gerais o que pretendiam e, no dia seguinte, começaram os treinos.

O treinador disse a Edgar que eram seus arranques que o tinham trazido até ali. Por isso ele tinha que focar nesse quesito.

Na viagem para os EUA Edgar se encantava com tudo. Nunca tinha entrado em um avião, nunca tinha se hospedado em um hotel e, é claro, nunca tinha sido celebridade.

Nos primeiros jogos ele nem entrou entre os reservas. A seleção ganhou os dois jogos e o assunto Edgar tinha sido esquecido.

No terceiro jogo o Brasil ganhava de 2 a 0. Edgar estava no banco, mas ninguém nem noticiou o fato. O técnico ia fazer uma substituição e pôs Edgar para o aquecimento.

Ninguém falava mais a respeito do jogo. Agora o assunto era de novo o Edgar. Os especialistas mais experientes diziam que 2 a 0 era uma situação perigosa. Se, por descuido, o adversário fizer um gol, daí para o empate é muito fácil.

Ninguém apoiava a decisão de colocar uma incógnita em campo, sendo que havia tantas certezas à disposição.

Edgar entrou em campo e seguiu as orientações do técnico. Os jogadores quase instintivamente evitavam passar a bola para ele, mas em uma sobra na intermediária, do lado direito do campo, Edgar pegou a bola e, com seu arranque, seguiu em direção ao gol em uma velocidade difícil de alcançar.

Os adversários tentaram carrinho, buscaram a falta, mas não tiveram resultado. Ele parecia um tanque de guerra com a versatilidade de uma moto.

Frente a frente com o goleiro, qualquer um tentaria o gol. Mas ele viu o companheiro ao lado em melhor condição e deu um passe açucarado para o colega fazer o gol.

Naquele momento, na comemoração em campo, passou a ser do time de verdade.

Mais adiante fez dois gols. O Brasil venceu com larga vantagem e Edgar virou herói nacional.

Até os mais céticos especialistas admitiam a “visão” do técnico.

Antes da estreia já tinha sido sondado pelos grandes times do Brasil. Agora eram os grandes clubes da Europa que o procuravam.

Um narrador bastante conhecido, descrevendo uma grande jogada sua, disse em meio à narração que ele parecia um E.T.

O apelido acabou pegando e ele virou Edgar ET.

No começo ele não gostou, mas, tendo vindo de Varginha, não tinha como escapar do apelido.

Durante a coletiva no final daquele primeiro jogo, o técnico sem querer consolidou o apelido.

Perguntaram como ele escolheu o desconhecido Edgar e o treinador, que já tinha respondido dezenas de vezes aquela pergunta, falou com certa ironia:

— Eu passei por Varginha e o vi jogar. Ele fez um arranque muito bom e pensei que era de outro mundo.

Foi o suficiente.

Especulações, teorias da conspiração, memes, programas humorísticos e montagens na internet fizeram o apelido pegar de vez.

Programas de TV sérios, além de jogadores e técnicos, passaram a trazer especialistas em OVNIs para os debates. Eles só se interessavam em dizer que o caso Varginha tinha sido abafado pelas autoridades.

Edgar ET foi contratado por um clube europeu não tão conhecido. Teve uma carreira vitoriosa. Não jogou mais na Seleção Brasileira, mas ganhou muito dinheiro e foi ídolo em outros clubes da Europa.

Em Varginha virou lenda. Tinha uma estátua em uma praça da cidade e, sempre que vinha ao Brasil, ia a Varginha e fazia piadas com seu apelido e com a história do ET de Varginha.

Edgar ET morreu cedo. Aos 40 anos, um infarto fulminante levou o grande jogador.

Mas a lenda continuava viva.

Um dia, um homem assistindo a um jogo no campo do Boa Esporte Clube foi surpreendido pela pergunta do filho, ainda garoto:

— Pai, o Edgar ET veio mesmo de outro planeta?

O pai olhou para o garoto, depois para o jogo e, finalmente, para uma placa que dizia “Edgar ET, para sempre”.

Virou novamente para o filho e disse:

— Isso foi uma brincadeira da imprensa. Mas confesso que às vezes fico na dúvida. Tem gente que passa pela Terra e se arranca tão rápido que parece mesmo que não é daqui.

Campinas, 21 de maio de 2026.

Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 22/05/2026
Alterado em 05/06/2026
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