Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
Conversas com minha mãe
Hoje foi dia de visitar minha mãe. Ela está em uma casa de repouso excelente, a uns 20 minutos de casa.
A cada visita, uma surpresa.
Aos 93 anos, com demência/Alzheimer e impossibilitada de andar, não há como ficar indiferente. Não há como ser algo simples.
Hoje ela estava quieta, falava pouco e, quando falava, repetia o que diz sempre:
ꟷ Meu filho, como tu é bonito. Eu acho tu tão bonito.
Olhei para ela, fiz um carinho em seu braço e falei:
ꟷ Mãe, quando a senhora for ficar com Jesus, quem vai falar essas coisas pra mim? Quem vai orar por mim?
Ela me olhou fixamente e respondeu bem mansinho:
ꟷ Ô, mas tem que ir, né? Quando Ele chamar, eu vou.
ꟷ Sim, minha mãe, todos nós vamos, mais cedo ou mais tarde.
ꟷ Como será o céu? ꟷ perguntou, e já respondeu: ꟷ Sem tristeza, sem choro, sem brigas… tudo paz.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, continuou:
ꟷ Mas de comer a gente não para, né?
ꟷ Mãe, não sei… acho que no céu não se come, não.
ꟷ Ah, não. Comida tem que ter.
Ri um pouco, acariciei seu rosto e disse:
ꟷ Mãe, se tem comida, tem que ter banheiro.
ꟷ Ué, é claro que deve ter banheiro.
ꟷ Mas mãe, a senhora já imaginou um espírito fazendo cocô?
Ela riu com vontade e depois disse que um espírito não vê o outro no banheiro.
Paramos de falar.
Como não puxava assunto, não contava histórias, nem falava da própria mãe, resolvi entretê-la contando uma história. Às vezes dá certo.
ꟷ Mãe, vou contar uma história de Jesus pra senhora.
Vi um brilho em seus olhos, como o de uma criança.
ꟷ Jesus estava em um barco, viajando. Depois de um tempo, foi para um canto e dormiu. Enquanto Ele dormia, o mar começou a ficar bravo: entrava água, os homens tiravam, entrava mais; as ondas cada vez mais fortes.
Eu falava com ênfase, como se ela tivesse cinco anos e eu estivesse contando histórias de princesas e cavaleiros. Fazia caras e bocas, imitava os homens com medo. Com as mãos, desenhava o mar revolto. Ela, atenta, como uma criança.
Continuei:
ꟷ Então, muito apavorados, foram acordar Jesus. Ele se levantou e apenas olhou o que estava acontecendo.
Nesse ponto, ela já estava visivelmente emocionada. Me olhava como se não conhecesse a história.
ꟷ Aí, mãe, Jesus foi calmamente até a frente do barco e ergueu os braços assim…
Falei e estendi os braços. Ela, atenta.
ꟷ Então Ele começou a fazer esse gesto… ꟷ fiz sinal de quem manda diminuir ꟷ e o mar foi acalmando, acalmando… até ficar tudo lisinho. Todos ficaram admirados e diziam:
ꟷ Quem é este que até o mar domina?
Ela fez uma leve expressão de choro, olhou para os próprios braços e disse:
ꟷ Ô, meu filho… fiquei toda arrepiada.
Fiquei olhando aquela mulher que eu tanto amo — e que já não está mais ali.
Resta uma pálida sombra da minha mãe.
Ela me olhou fundo nos olhos. Por uma fração de segundo, pareceu voltar de um mundo distante — mas não passou disso:
ꟷ Filho, é tão gostoso conversar com tu. Conversando com tu eu fico mais sabida.
Eu ri, acariciei seus braços, seu rosto repleto de rugas:
ꟷ É que eu gosto muito de ler, minha mãe.
Ela disse que não gostava, que dava sono. E eu ali, olhando para ela, tentando encontrar minha mãe naquele corpo envelhecido — sem conseguir.
Na hora de ir embora, agradeceu a visita. Disse que era uma grande felicidade quando eu aparecia.
E eu saí com um grande sentimento de culpa.
Vou, em média, duas vezes por semana e não fico mais que uns quarenta minutos.
O entusiasmo com que me recebe… Saber que levo momentos de felicidade, ainda que breves — isso importa. Mesmo que logo depois ela não se lembre mais que estive lá.
Mas também existe o cansaço, a impotência e o estresse de toda a situação. Às vezes fico apenas ao lado dela, em silêncio.
Nos dias em que está mais falante, tudo fica um pouco mais fácil. Acompanho suas histórias, faço perguntas, e tenho a sensação de ter sido mais útil.
Minha culpa vem disso: estou tão perto… poderia ir todos os dias. Mas sempre acabo dando preferência a outras coisas — e me cobro por isso.
Ela é vinte e dois anos mais velha que eu.
Fico imaginando que, daqui a vinte anos — ou seja, amanhã — talvez eu esteja daquele jeito, com meus filhos diante de mim.
Não fui para meus filhos o que ela foi para mim. Praticamente não tive pai. Como poderia saber ser pai?
Não sei se terei visitas. Nem sei se mereço, dos meus filhos, o pouco que ofereço à minha mãe.
Hoje saí de lá mais mexido que o normal.
Nada foi diferente. Talvez eu estivesse mais emotivo.
Só me resta pedir a Deus que me poupe dessa experiência.

Campinas, 5 de abril de 2026
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 08/04/2026
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