O SUMIÇO DA NINA
Marlene é uma mulher que não tem grandes interesses ou ambições. Sua vida se resume à família e à igreja.
Evangélica fervorosa, estuda e procura seguir os preceitos bíblicos. Quanto à família, o marido, Paulão, os dois filhos e sua mãe à época já um tanto idosa praticamente resumem seu círculo próximo.
Marlene ganhou uma cachorrinha Poodle que recebeu o nome de Nina. Nina trazia um ar de leveza à casa, já que seus filhos já eram adultos e tinham suas próprias vidas.
Um dia Nina sumiu de casa. Ninguém sabe como a cachorrinha aproveitou o portão aberto, saiu e não mais voltou. O desaparecimento da cachorra mexeu fundo e ela, com frequência, se pegava chorando de saudades do animalzinho.
Depois de percorrer as redondezas e indagar a todos, sem resultados, resolveu procurar o Pastor da Igreja que frequentava:
ꟷ Pastor, a Nina tem muito medo dos trovões. Quando chove forte ela fica abraçadinha comigo e tremendo. Tem chovido tanto esses dias e não sei onde ela está. Pastor será que é pecado eu orar pela Nina?
E assim o tempo foi passando com Marlene desolada. Depois de uns 15 dias do desaparecimento, Marlene estava em um ônibus e começou a conversar com outra mulher que estava ao seu lado. Contou o que tinha acontecido e descreveu seu sofrimento. Em dado momento, outra passageira que escutava a conversa, pediu licença e falou:
ꟷ A senhora desculpe me intrometer na conversa de vocês, é que uma conhecida minha encontrou uma cachorrinha parecida com esta que a senhora descreveu e isso tem uns 15 dias. A cachorrinha está lá na casa dela.
Por óbvio Marlene se interessou muito pelo assunto, com o coração apertado pediu detalhes, mas a desconhecida com uma gentileza sem tamanho, abandonou seu compromisso, desceu do ônibus no local e levou Marlene até a casa da tal conhecida.
A casa ficava na rua 24 de fevereiro, esta é uma rua conhecida na região e o Paulo passava por ali de carro várias vezes por dia.
Quando chegaram ao portão realmente era a Nina que estava lá. Ao ver a antiga dona a felicidade do bichinho foi tamanha que chegou a se urinar, Marlene chorando e até a desconhecida também chorou. A dona da casa viu a cena e disse não haver dúvida quanto a propriedade do animal, mas ela tinha uma criança que, nesses 15 dias, tinha se afeiçoado pela cachorrinha, no entanto diante da cena, decidiu devolver Nina à dona e providenciar um outro cachorro para seu filho.
Na conversa que se seguiu, a mulher que achou a cachorrinha disse que em determinados horários a cachorra ia para o portão, latia insistentemente e chorava.
Era justamente os momentos em que o Paulão passava de carro na frente da casa.
Não sei se o Pastor autorizou a Marlene a orar pelo cão, mas creio que de alguma forma houve um auxílio sobrenatural, pois costumo desconfiar de coincidências deste porte.
Campinas, 1 de fevereiro de 2023
Escrevi nesta data, mas a história é antiga. Creio que uns 20 anos.