Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos

      

 

Fui visitar minha mãe anteontem. Como já disse outras vezes, ela está com 93 anos e sofrendo de Demência/Alzheimer.

Ela não lembra mais das coisas recentes. Vive em outro tempo. Fala pouco, contrastando com o modo como viveu por toda a vida.

Quando fala, quase sempre volta à infância, em Jequié. Fala de vários acontecimentos daquela época como se tivessem acontecido ontem.

Coisas vividas há 85 anos.

Uma história que ela conta em quase todas as visitas é da mãe dela, minha avó, torrando café e cantando.

Ela conta imitando os movimentos feitos com as mãos para realizar o trabalho. Diz que a mãe gostava de cantar um hino, mas nem sempre consegue lembrar qual era naquele momento.

Levo sempre nas visitas o celular e o fone de ouvido. Quando sinto o momento, digo a ela:

— Mãe, vou pôr um hino para a senhora escutar.

Ela sempre concorda feliz. Ajeito os fones em seus ouvidos e, invariavelmente, coloco o mesmo hino:

Vou Morar.

Já nos primeiros acordes ela faz uma expressão saudosa e diz:

— Ô meu filho, mãe adorava esse hino.

Fica emocionada, faz uma breve cara de choro e começa a cantar junto com o cantor:

 

Eu avisto uma terra feliz,

Aonde irei para sempre morar,

Há mansões nesse lindo país,

Que Jesus foi pra nós preparar.

 

Se houver alguém por perto, vem ver a velhinha cantando. As enfermeiras e outros internos olham, sorriem e seguem seus afazeres. E eu fico ali ouvindo ela cantar, ajudando com a letra quando ela por vezes esquece.

Todas as visitas são invariavelmente assim, salvo quando ela está com sono ou mais calada, por razões desconhecidas.

Há anos — muitos anos — aconteceu uma história curiosa.

Naquela época existia em São Paulo um supermercado chamado Paes Mendonça. Era enorme. Vendia de tudo: desde um alfinete ou uma bala até geladeira, computador, passando por quitanda e mercado completo.

Um dia minha mãe foi comprar alguma coisa lá.  Chegou em casa contando uma história curiosa.

— Eu peguei uma colherzinha — dizia ela. — Peguei uma colherzinha de chá no Paes Mendonça.

Ficou aflita, repetindo aquilo.

Na época a história correu pela família, mas ninguém deu muita atenção.

Pois bem.

Agora, tantos anos depois, visitando a velhinha, esse acontecimento me veio à lembrança. Não sei por quê. Perguntei:

— Mãe, a senhora lembra da história da colherzinha?

— Que colherzinha, meu filho?

— Uma que a senhora pegou no Paes Mendonça.

Para minha surpresa, ela disse que lembrava.

E começou a contar.

— Filho, eu estava andando pelo supermercado, olhando as prateleiras. Aí vi aquela colherzinha. Me deu uma coisa… um desejo. Eu fui e peguei.

A história que eu não tinha dado bola no passado agora me interessava.

— Mas a senhora colocou onde?

Ela respondeu com toda naturalidade:

— Pus dentro do sutiã. Quero ver quem vai mexer aqui.

Olhei para ela com os olhos arregalados. Minha mãe estava confessando um roubo, um assalto à mão desarmada.

Ela continuou:

— Fui embora para casa, mas na saída do Paes Mendonça já fiquei arrependida. Muito arrependida. Meu peito batia forte. Era uma sensação hórrivi.

Como boa nordestina o sotaque aparece fácil em algumas palavras.   E continuou:

— Parecia que aquela colherzinha estava queimando dentro de mim. Contaminou meu sutiã, minha pele.

E completou:

— Deus não se alegra com uma coisa dessas.

Todo mundo ria, mas ela estava aflita.

Depois de muita conversa, muita gente palpitando — a maioria mandando que ela esquecesse o ocorrido — ela decidiu.

— Vou devolver.

Não lembrava desse desfecho. Fiquei com cara de interrogação gigante olhando pra ela, e ela continuou:

— Voltei no Paes Mendonça — disse ela. — Peguei a colherzinha e coloquei de volta no mesmo lugar onde estava.

Fiquei observando sua reação ao contar, tentando entender o que ela sentiu na época e o que sentia agora. Mas não tive muito sucesso.

Perguntei:

— E a senhora ficou em paz?

Ela respondeu:

— Graças a Deus.

Enquanto ela contava essa história, eu olhando para aquela velhinha que amo tanto que chega a doer e pensando na honestidade dela, nos valores que ela me passou.

A gente aprende muito com os pais. Aprende coisas boas. Às vezes aprende também coisas não tão boas. Mas sempre aprende.

O tempo é algo curioso.

Minha mãe teve um sonho com Jesus. Um sonho muito bonito. Ela contava sempre com muitos detalhes e com muita emoção. Às vezes chegava a chorar contando esse sonho. Gravamos em vídeo algumas vezes.

Hoje ela já não se lembra mais dele.

Mas se lembra perfeitamente da colherzinha que roubou no Paes Mendonça.

E isso, de alguma forma, também diz muito sobre a vida. Sobre ela, sobre valores, sobre honestidade, sobre franqueza.

Quando vejo o estado em que se encontra minha mãe, sempre me pergunto o que ela ainda está fazendo na terra. Sempre acreditei que estamos aqui para aprender.

E me pergunto:

— O que ela ainda pode aprender nesse estado, em que não se lembra do que aconteceu há dez minutos?

Mas a resposta é surpreendente e mostra a grandeza da vida, a grandeza de Deus.

Ela já passou da fase de aprendizado.

Está agora na fase de trazer outros ensinamentos.

Nós é que temos que aprender com ela.

Ela ainda está aqui para nos ensinar.

Este meu pensamento não é novo. Quando pensava nisso, achava que era para ensinar respeito, amor, cuidado com os que amamos.

Estava enganado.

Neste dia tive uma lição de honestidade como poucas.

Quem pode contar que a própria mãe teve uma atitude dessas? Contada dessa forma? Eu por exemplo, se fosse contar algo assim para meus filhos antes teria passado por filtros cômicos e a história perderia essa força que só a simplicidade traz.

Poucos, muito poucos privilegiados.

Fiquei olhando aquelas rugas enormes, aquele olhar distante.

Aquele amor poderoso que nos une e que agora, ao escrever, insiste em umedecer meus olhos.

Campinas, 3 de março de 2026.

Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 07/03/2026
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