É de manhã, muito, muito cedo.
Roberto não havia acordado completamente.
Devia ser umas oito ou nove horas da madrugada.
Rita, já de pé, atendeu à campainha e, ao longe, Roberto ouviu vozes femininas.
Tratava-se da vizinha do quarenta e seis.
Ela tinha uma loja de cortinas e viera para decidirem sobre a troca de alguns itens de decoração do apartamento e, é claro, das cortinas.
Roberto não escutava muito bem o que as mulheres conversavam.
As palavras chegavam distorcidas ao quarto.
Roberto ouvia, mas não tinha qualquer interesse no assunto.
A ele só caberia pagar parte da conta.
— Aqui na sala — disse a vizinha — a gente joga um azul meio pastel.
Rita não pareceu muito convencida, mas a mulher usou para convencê-la um argumento que se repetiria ao longo de toda a negociação das duas:
— Não se preocupe! Tausano!
No torpor de quase dormindo, quase acordado, Roberto não entendia as coisas direito.
Concentrou-se, na medida do possível, no tal pastel.
Como não encontrava um ingrediente culinário azul, ficava só no pastel e imaginava uma cortina cor de gordura de pastel de feira.
Achou que a sala definitivamente não iria ser um lugar agradável.
Depois de algum tempo e de escutar mais uns milhares de “tausano”, descobriu o significado da palavra.
Tratava-se de um sinônimo de “tá na moda, sua trouxa”.
Podia comprar que outras já haviam comprado também.
Ou seja, estava usando.
As mulheres decidiram quase tudo.
Faltou apenas a cortina do quarto que, como Roberto estava lá dormindo, não tinha como elas jogarem gordura de pastel.
Até ensaiou uns roncos fingidos para manter a paz e deixou a Dona Tausano e Rita se resolverem.
Dias depois, Rita e Roberto passeavam pelo shopping quando ele viu um criado-mudo que poderia servir de modelo para um que queriam mandar fazer.
— Rita, a gente podia usar aquele ali de modelo para fazer o nosso. O que você acha?
Cheia de razão, ela argumentou que já tinha visto um modelo melhor e, para espanto de Roberto, disse que no quarto os criados-mudos seriam diferentes um do outro.
No mesmo instante Roberto sentiu o sangue subir pelo pescoço.
O peito estufar.
O rosto e todo o corpo inflarem como o do Incrível Hulk.
Falou em voz firme e em tom mais alto que o normal:
— Isso é um absurdo! Onde já se viu no mesmo quarto, dois criados-mudos, um diferente do outro?
A resposta de Rita foi o que o deixou realmente nervoso:
— Está usando — ela disse como quem diz que o amor é lindo. — Você é muito quadradinho.
Roberto falou um monte.
Despejou coisas que nada tinham a ver com pastéis azuis ou criados-mudos diferentes.
Rita, coitada, que nunca tinha visto aquela expressão de fúria, ficou espantada, só olhando, enquanto algumas pessoas paravam para assistir à cena.
Na verdade, Roberto sabia que não era por conta do criado-mudo que estava nervoso.
Acontece que estava com dor de estômago, de barriga, de cabeça, de tudo.
É que tinha comido uma rabada no bar do Tonhão e, queria crer, seu corpo não a estava recebendo muito bem.
O Bar do Tonhão era um lugar secreto que Roberto frequentava sem que ninguém soubesse.
Nenhuma das pessoas do seu círculo normal iria àquele bar.
Bando de frescos, não sabiam o que era bom!
Na verdade, havia quem dissesse que o Bar do Tonhão já fora melhor.
Houve tempos em que até motoristas de caminhão frequentavam.
Diziam os saudosistas.
Era um luxo.
Hoje nem os ajudantes se arriscavam.
Havia uma obra em frente ao bar, mas os pedreiros evitavam o local alegando falta de higiene.
Se Roberto tivesse se lembrado do Bar do Tonhão no dia da visita da Dona Tausano, certamente recordaria de algum bolinho ou pastel azul.
De qualquer forma, gostava muito do Tonhão.
E a rabada que ele fazia não tinha igual.
Mas naquele dia talvez não tivesse caído muito bem.
Ou, quem sabe, podia ter sido a sempre suspeita azeitona.
O fato é que Roberto estava com uma explosão de fúria incubada e os criados-mudos diferentes é que pagaram o pato.
Dias depois, à mesma hora da madrugada, um pouco arrependido e envergonhado pela cena no shopping, ouviu a chegada da Dona Tausano para fechar os detalhes finais com Rita.
Permaneceu firme deitado em seu posto.
— Então, Rita, o que você já decidiu?
Rita explicou daqui, detalhou dali, até que, em dado momento, a Dona Tausano perguntou:
— Você não estava querendo uma ideia para os criados-mudos?
— Ih, nem te conto! Você sabe que meu marido é meio quadradinho, né? Pois bem, falei a ele que ia dar um toque moderno e fazer um composê com dois criados-mudos diferentes e o homem virou uma fera.
Dona Tausano ficou toda interessada:
— É mesmo? O que ele disse?
— Você nem imagina! Gritou, falou grosso, pensei até que fosse me agredir.
A resposta da Dona Tausano deixou Roberto perplexo:
— Você é uma mulher de sorte, hein? Quem diria, ele parece meio quietão. Olha, Rita, com essa onda de metrossexual e outras modernidades, esses maridos meio nervosos e leigos em moda estão usando que você nem imagina. Quem tem um marido assim vive contando vantagem.
No quarto, já completamente acordado, Roberto não sabia se estava sendo elogiado ou avacalhado de vez.
Então ele estava na moda por estar fora de moda.
E tudo por conta da rabada.
Ou melhor, da manjada azeitoninha.
Campinas, 14 de junho de 2008
Roberto e Rita são um querido casal de amigos