Eric estava sentado conversando com alguns amigos quando chegou sua netinha, Jussara, de cinco anos. Antes cabe uma explicação: Jussara era a menina mais fofa, mais engraçadinha e de sorriso mais inocente que habitava o planeta.
Pois bem, esclarecido este detalhe, continuemos: ela se aproximou, mexeu nas mãos do avÎ e, notando sua aliança pela primeira vez, perguntou:
â VovĂŽ, vocĂȘ usa uma aliança?
Eric pegou a menina no colo e, carinhosamente, respondeu:
â Uso, meu bem. VocĂȘ nunca tinha percebido?
Ela ignorou a pergunta e disse:
â EntĂŁo vocĂȘ Ă© casado?
Eric deu uma boa risada e confirmou que sim, que era casado. NĂŁo falou que era com a vovĂł. Estava se divertindo com o rumo da conversa e nĂŁo tinha a menor ideia do que se passava na cabecinha da neta.
Então, com ar de indignação, surpresa e profunda decepção, Jussara falou:
â EntĂŁo por que vocĂȘ nĂŁo me convidou para o seu casamento?
Eric não respondeu. Abraçou a frågil criaturinha e ficou rindo, explicando para as pessoas que passavam que ela não entendia por que não tinha sido convidada para o casamento.
Alguém se dispÎs, em seu lugar, a dar as razÔes. Ele a beijou, deu-lhe uma bala e se deu por satisfeito.
Mais tarde, a cena toda lhe voltou Ă mente. Como em um filme, reviu a sequĂȘncia de acontecimentos e a carinha de decepção da neta, que na hora nĂŁo havia percebido.
Sentiu-se um verdadeiro idiota.
Por que não dera toda a atenção que ela precisava naquele momento e explicara o óbvio? Por que preferira se divertir com outros adultos e deixar de lado alguém muito mais frågil, muito mais importante e a quem amava muito mais, em prol de algumas risadas?
Por que, tantas vezes, somos mais solĂcitos, delicados e atenciosos com estranhos do que com as pessoas que amamos verdadeiramente?
Eric nĂŁo sabia as respostas.
Mas se julgou e se condenou por aquele ato, pensando em quantas vezes nĂŁo agira da mesma maneira com seus filhos quando pequenos.
As crianças nĂŁo vĂȘm com manual de instruçÔes, nem quando casamos recebemos um guia com todos os caminhos a serem seguidos.
Se agora, Ă s portas da velhice, compreendia algo tĂŁo simples, no vigor da juventude, lutando para ganhar a vida e enfrentando problemas de toda ordem, quantas vezes deixara perguntas simples sem respostas para os filhos?
E, pior ainda, quantas vezes os decepcionara tanto quanto acreditava ter decepcionado a neta por ter-se esquecido dela no casamento.
De certa forma, ficou mais clara para Eric a imensa doçura das lembranças que trazia da prĂłpria avĂł. Certamente ela tivera paciĂȘncia, tempo, disponibilidade e, Ă© claro, amor para responder questĂ”es complexas como a que ele se furtara a responder por pura diversĂŁo.
No dia seguinte, assim que teve oportunidade, Eric pegou Jussara no colo â jĂĄ sem muita convicção, por saber que, para quem tem cinco anos de idade, um dia nĂŁo tem a mesma duração que os relĂłgios dos adultos marcam.
Mesmo assim perguntou:
â Meu bem, vocĂȘ entendeu por que o vovĂŽ nĂŁo convidou vocĂȘ para o casamento?
Ela balançou afirmativamente a cabeça sem convencĂȘ-lo. Parecia apenas estar sendo polida.
EntĂŁo continuou:
â Lembra que eu contei para vocĂȘ o dia em que vocĂȘ nasceu e eu fui te buscar no hospital?
â Lembro â respondeu mais convicta.
â Veja sĂł: naquela Ă©poca eu jĂĄ era casado. Isso quer dizer que, quando vocĂȘ nasceu, eu jĂĄ tinha casado havia muito, muito tempo e, por isso, vocĂȘ nĂŁo podia ter ido Ă festa.
Lira, de oito anos, estava ao lado e perguntou se ela também não tinha nascido ainda.
Eric respondeu que nĂŁo.
Felipe, seu caçula de vinte e quatro anos, tentou ajudar dizendo que nem mesmo ele tinha nascido na época do casamento.
Jussara, ainda no colo do avĂŽ, ficou espantadĂssima com a afirmação de Felipe.
â Meu bem â completou Eric â nem mesmo a sua mamĂŁe tinha nascido quando o vovĂŽ se casou.
Ela pareceu mais conformada e foi brincar.
Eric ficou ali pensando na inocĂȘncia infantil, na prĂłpria insensibilidade e fazendo mil promessas de mudanças.
Por outro lado, refletiu também que, sob o ponto de vista da neta, era inacreditåvel o tempo que tinha de casamento e de vida.
Ele mesmo quase nem se lembrava mais de que um dia fora criança, adolescente, solteiro.
Da Ăłtica de uma pessoa de cinco anos, essas etapas da vida eram algo semelhante Ă eternidade â e essa nem a fĂsica quĂąntica conseguiu explicar.
Campinas, 8 de abril de 2007