APENAS FIGURANTES 🟡㉞
Era de manhã. Eric não estava acordado nem, tampouco, dormindo. Estava naquele gostoso limiar entre a vigília e o sono.
Sentiu que Rose se movimentava na cama e que iria levantar. Abrindo só um pouquinho os olhos, percebeu que o dia já amanhecera há muito. Com algum esforço, falou com voz manhosa:
— Onde você vai? Não me abandone.
Não tinha certeza se sua voz realmente saíra. Não tinha certeza se estava sonhando e, na verdade, nada havia dito.
Sentiu mudar a direção dos movimentos dela e o calor de seu corpo se aproximar do dele. Beijos suaves em seu rosto, a respiração quente em seu ouvido e algumas palavras sussurradas:
— Ainda é muito cedo. Relaxe e durma mais um pouquinho que, depois, eu venho te acordar.
Que delícia!
Eric procurava relaxar o corpo, certo de que estava seguro, de que era amado e de que, daqui a pouco, seria acordado com muitos beijos e tomaria um belo café da manhã ao lado dela.
Algumas vezes tudo acontecia assim; outras vezes ele acordava sozinho depois que Rose já tinha levantado e a surpreendia com um abraço sensual e um beijinho no pescoço enquanto ela preparava o café.
Essas coisas, hoje, pareciam-lhe figurações de um filme.
Imaginava: os personagens principais, em momento decisivo, se reúnem em um restaurante. O garçom que os atende podia ser o Tarcísio Meira e ninguém notava. O casal da mesa ao lado podia ser a Luana Piovani e o Diogo Lacerda e, nem assim, alguém notava.
É que todos estavam presos à trama principal e parecia que os figurantes e as coisas que os cercavam não existiam.
Hoje, Eric pensava em assistir novamente à sua vida, prestando atenção somente nesses detalhes que agora lhe pareciam ser a alma, a essência do filme.
Havia dias em que os papéis eram invertidos. Ele acordava mais cedo e ficava ali na cama pensando, programando o dia ou qualquer coisa assim. Rose, ao seu lado, dormindo.
Cansado da cama, resolvia levantar para ler o jornal. Ao seu primeiro movimento, ela falava com a voz manhosa e pastosa de quem não acordara nadinha:
— Onde cê vai? Eu tô acordada!
Eric a abraçava e dizia em seu ouvido:
— Eu sei, eu sei. Vou ver o jornal e já volto.
— Vai não. Fica aqui abraçadinho comigo.
Ele ficava. Quem trocaria um aconchego gostoso por notícias de sequestros no Rio e bombas no Iraque?
Não sabia por que essas lembranças lhe voltaram hoje.
Na verdade, como nas figurações do cinema, Eric não percebia a existência desses momentos. Sua memória só guardava os diálogos pesados e cheios de emoções, os tiroteios, as perseguições cheias de perigo, os efeitos especiais que ambos faziam e, sem dublês, desafiavam a própria sorte.
Agora, sozinho, achava curioso estar lembrando das figurações sem importância. Dos momentos de pouca intensidade dramática e que, na verdade, eram os fios condutores do filme, da vida deles.
Campinas, 20 de setembro de 2004
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 07/03/2026