TELEFONEMA đĄă
Eric estava tranquilamente jantando e tomando uma sagrada cervejinha quando o telefone tocou.
â AlĂŽ!
â Pai... Liguei para dar uma notĂcia sensacional...
Era a Madalena.
â Oi, filha! Tudo bem?
â A Lira aprendeu a andar... â falou entusiasmada.
Eric ficou sem saber o que dizer. Nunca sabia o que se dizia em aniversårios, enterros, nascimentos e, agora descobria, quando crianças aprendem a andar.
â Que legal, filha...
Nada lhe vinha à cabeça. Serå que deveria perguntar se ela andava com os dois pés? Se tinha freio ABS? Se foi no primeiro ou no segundo tempo? Seu pobre cérebro trabalhava incansavelmente.
â VocĂȘs estĂŁo de parabĂ©ns...
Pensou imediatamente: âQue frase mais idiota.â Imaginou que a menina ficaria frustrada com o pai.
â Pai, ela nĂŁo para um segundo, vai do quarto para a sala, da sala para a cozinha, estĂĄ eufĂłrica com a novidade.
â Que bonitinha! â disse Eric, sem muita convicção.
Nesse meio-tempo, percebeu que Rose havia parado de jantar e estava atenta Ă conversa. Sem avisar nenhuma das duas, Eric passou o telefone para a esposa, que, completamente Ă vontade, disse:
â VocĂȘ saiu para trabalhar e quando voltou ela jĂĄ estava andando?
Eric pensou: âPor que eu nĂŁo disse algo assim? Como sou burro...â
Rose continuou:
â Que gracinha, aprendeu faz dez minutos?
E as duas se enrolaram em um papo sobre sapatinhos, botinhas e uma sĂ©rie de outros âinhosâ. Eric ficou ali calado, perdido em seus pensamentos.
Aos poucos, foi lembrando que um dia, hå mais de vinte anos, chegara do trabalho e Rose não veio beijå-lo como de costume. Parou a uns quatro metros, com a Madalena pequenininha de pé entre suas pernas e, de repente, a soltou. A menina andou até Eric com seus primeiros e inseguros passos.
Eles eram tĂŁo jovens... Tinham tantos sonhos.
Eric nĂŁo se lembrava da maioria desses âtantos sonhosâ, mas achava que um deles era justamente este: o de ter netos e vĂȘ-los dar alegrias como aquela a seus filhos.
Maio de 2000
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 07/03/2026