Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
VINGANÇA 🟡㉜
Mas enquanto houver força em seu peito, não quer mais nada
Só vingança, vingança, vingança, aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu, pra poder descansar
(Lupicínio Rodrigues)

Por conta da nova lei que tira a carteira de motorista de quem atinge determinado número de multas, Eric foi suspenso por dois meses de seu direito de dirigir. Nesse período, era Rose, sua mulher, quem o levava e trazia do trabalho. Além disso, em todos os passeios ou quaisquer outras movimentações de carro, era ela a motorista.
Não eram, é claro, as primeiras vezes que Eric a via dirigir. Em qualquer viagem um pouco mais longa, em dado momento ela assumia o volante e nunca mostrara ser uma má motorista. Ao contrário, sempre dirigira bem e com segurança.
No entanto, logo nos primeiros dias em que passou a ser a motorista oficial, Eric notou uma sensível diferença em seu modo de dirigir.
Rose passou a não errar um buraco nas ruas. Na hora de escolher os caminhos, preferia aqueles em que o asfalto estava em piores condições, para ter mais chance de jogar o carro nos buracos.
Sim, era o carro de Eric que usavam. E era o pobre carro dele que sofria nas crateras da cidade.
No começo, evitando dar palpites, Eric falava com toda a ternura:
— Meu bem, cuidado com o buraco...
E bum! Lá ia a cabeça dele batendo no teto do carro.
Uma vez foram para o Guarujá. A Rodovia dos Imigrantes tem três pistas para subir a serra. Rose, sob o argumento de que o carro não tinha potência suficiente para a pista da esquerda, ia pela pista do meio.
A velocidade dos outros carros era menor que a dela, então ultrapassava pela direita. A velocidade da pista da direita era menor ainda, e ela ficava costurando perigosamente entre as três pistas.
Eric perguntou se, por ter pago um preço alto de pedágio, ela fazia questão de usar a rodovia inteira.
A resposta foi um rosnado que o fez ficar calado por alguns quilômetros.
A dona Jane, mãe do Luizão, aprendera a dirigir já muito velha e um dia chegou em casa toda feliz por ter usado a terceira marcha do carro. Foi assim que se descobriu que ela rodava São Paulo inteira apenas em primeira e segunda.
Rose era o oposto.
Por alguma razão que nem Freud explica, ela achava que, depois de engatada a quinta na rodovia, não se podia mais mudar de marcha.
Se surgia uma subida, a velocidade caía para cem, noventa, oitenta, setenta...
O coração de Eric apertava.
Parecia que o carro ia ter uma síncope.
Ele pensava: “Agora ela vai reduzir.”
Ledo engano.
Rose alisava a alavanca de câmbio carinhosamente e voltava a mão ao volante.
Eric, a ponto de explodir, dizia:
— Meu bem, já passou da hora de reduzir. Você não percebe que está forçando o carro?
Ela fazia cara de surpresa, dizia que tinha se distraído e mudava a marcha.
Outras vezes, ficava em segunda a cem por hora, com o motor parecendo foguete da NASA em lançamento.
E Eric ali, engolindo uma raiva sem medida.
Tudo mudou no dia do olho-de-gato.
Nas rodovias há aqueles refletores separando as pistas.
Um dia, Rose andou por quase dois quilômetros em cima deles.
O carro parecia um liquidificador batendo gelo.
Eric explodiu:
— Porra, Rose, você não vê que está em cima dos olhos-de-gato?
— Poxa, nem percebi — respondeu ela, com uma expressão que o intrigou muito.
Ele buscou na memória quando já tinha visto aquela cara.
Depois de muito pensar, entendeu.
Era a expressão dos filmes em que o vilão finalmente se dá mal.
Era satisfação por vingança.
Rose estava se vingando dele.
Do quê?
Logo descobriu.
Trinta anos de blá-blá-blá.
Era o que ela ouvia quando reclamava da toalha molhada na cama, portas de armário abertas, copo na pia, sapato espalhado, cueca no micro-ondas.
Agora era ela quem fingia não ligar para as reclamações dele com o carro.
Saboreava seu prato frio de vingança.
Eric resolveu contra-atacar fingindo que estava incomodado, quando na verdade deixava tudo passar.
Deixou-a feliz sentindo-se vingada até recuperar sua carteira.
No mesmo dia levou o carro ao mecânico.
Depois dos solavancos, nada funcionava direito.
No fim do dia o mecânico ligou:
— Porra, cara, o que você fez com esse carro? Tá todo fudido.
Eric tentou culpar o cunhado.
O mecânico cortou:
— Seu cunhado participou de um rali com isso aqui. Vende essa merda em outra cidade ou leva pra desmanche.
Eric respirou fundo.
Desligou e pensou seriamente em matar Rose.
Entrou no Google: “pistoleiro urgente”.
Apareceram sites pornográficos.
Deu um murro na mesa.
Desistiu.
Depois de alguns dias resolveu ouvir um ou outro blá-blá-blá dela.
Talvez tivesse mesmo importância.
Mas uma coisa é certa:
Se um dia ficar sem carteira de motorista de novo, sua primeira providência será comprar um jipe 4x4 de guerra, à prova de mulheres enfurecidas.

Campinas, 6 de maio de 2007
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 07/03/2026
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