Minha mãe é evangélica desde menina.
Cresceu com a Bíblia como guia e, por décadas, manteve firme sua fé, sem espaço para desvios ou discussões.
Eu, por outro lado, sempre acreditei na reencarnação. E esse foi, por muito tempo, um terreno minado entre nós — evitado com o cuidado de quem sabe que certas conversas não levam a lugar nenhum, só ao desconforto.
Agora, aos 93 anos, com o Alzheimer avançado, ela vive num mundo onde o tempo se embaralha e as palavras dançam fora de sentido. Às vezes, suas frases arrancam risos de quem consegue olhar além da dor. É preciso ter esse olhar — o que vê beleza mesmo na fragilidade.
Outro dia, enquanto acariciava seus cabelos fininhos e sua pele marcada por rugas profundas, ela me disse que morrer era uma coisa muito triste e terrível. Eu, que já aprendi a conversar com ela como quem navega por águas desconhecidas, respondi:
– Mas mãe, quando a gente morre, não vai encontrar Jesus? Então como pode ter medo de Jesus?
Ela sorriu. Um sorriso leve, como quem encontra abrigo. E eu, levado por esse instante de ternura, resolvi ir mais fundo.
– Mãe, a senhora sabe que eu acredito na reencarnação, né?
Ela fez aquela cara de quem não gosta nem de ouvir. Mas eu insisti com jeitinho:
– Calma, mãe. Eu sei que a senhora não acredita. Mas vamos fazer um “faz de conta”, só para a senhora entender como é.
Ela concordou, insegura, e eu comecei a desenhar com palavras escolhidas como se fosse para uma criança:
– A gente acredita que dentro da senhora tem um espírito. E esse espírito não morre. Só o corpo morre – falei, apontando para nós dois.
Ela assentiu, e eu continuei:
– Todos nós temos uma missão. Essa missão é dada por Deus. Uma missão longa, que às vezes leva mais de mil anos para ser concluída. Como o corpo não dura tudo isso, o espírito nasce de novo, em outro corpo, para continuar a missão.
Ela me olhava com atenção rara. E eu fui além:
– Já pensou se for verdade? A senhora pode voltar num corpo novinho. Vai mamar, brincar na rua, ir à escola, ficar jovem, namorar de novo, casar-se de novo...
Ela parecia encantada.
– Pode ser médica, advogada... dirigir carro, mexer no computador, pilotar moto. Já pensou que maravilha?
Ela me olhou com aquele olhar de mãe que compreende mais com o coração do que com a razão, e disse:
– Ô meu filho, é tão gostoso conversar com tu. Tu estuda muita coisa, né?
Concordei. E então ela começou a falar da mãe dela, minha avó, que morreu há mais de 60 anos. Às vezes ela acha que está viva, às vezes que está morta. Naquele momento, estava morta. E minha mãe me contou:
– Sonhei que ia ter uma grande festa num lugar. E mãe era a responsável por organizar tudo. Ela distribuía as tarefas, e o povo todo ajudando.
– Que povo, mãe? – perguntei.
– Todo mundo, uai: Fafá, Lico, Nenzinha...
Meus tios. Irmãos dela. Todos já se foram. Só ela, a caçula, ainda está aqui.
– Nossa, mãe, que interessante. A festa era para receber alguém? Será que alguém está para chegar?
Ela não entendeu. E eu também não falei para ela entender. Falei porque me emocionei. Porque, de repente, aquela festa me pareceu real. Como se, desconectada da lógica do mundo, minha mãe tivesse acesso a algo que nós, ainda presos à razão, não conseguimos ver.
Desde então, essa festa não me sai da cabeça.
Será que, nesse estado de esquecimento, ela vê o que nós não vemos? Sente o que nós não sentimos?
Não sei.
Só sei que fui buscar lã e saí tosquiado.
E, curiosamente, adorei a sensação.
Campinas, 26/08/2025