Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
ABRAÇOS SUADOS 🟡㉒
Eu vinha a caminho da última curva. A partir dali seria apenas uma reta. Mais ou menos setecentos metros me separavam do final — setecentos metros de subida. Subida suave, mas subida.

  Para quem já vinha sofrendo por mais de nove quilômetros, a faixa de chegada parecia muito distante. Faltavam fôlego e pernas sob aquele sol que castigava corredores de primeira viagem como eu.

  Um ano e dois meses antes, completei a minha primeira volta na Lagoa do Taquaral. Foram 2.725 metros que, para mim, tinham sabor de grande vitória. Aos quarenta e oito anos de idade, acima do peso, sedentário convicto e apreciador de cervejas, caipirinhas, calabresa acebolada e outras gorduras, completar aquela volta foi um grande feito pessoal — ainda mais por não ter sido fruto de treinos exaustivos nem de orientação de treinador estilo sargento de filme americano. Nada disso. Eu apenas comecei a trotar e completei a volta.

  Na época, para mim, foi uma vitória digna de medalhas, fotos, notas nos jornais etc., mas, na verdade, era apenas o começo.

  De lá até a “Corrida Integração”, não houve grandes melhoras de tempo ou de distância. Afinal, meu objetivo era apenas correr para manter a saúde, pois, beirando os cinquenta, eu sabia que, se não mudasse de hábitos por livre escolha, logo chegariam as doenças e eu teria de mudar o estilo de vida por determinação médica — e não gosto muito de cumprir determinações.

  Aproximadamente dois meses antes, vi um cartaz anunciando a tal “Corrida Integração”, com percurso de dez quilômetros, e comecei a pensar se não seria possível participar. A essa altura, eu já conseguia, com algum sacrifício, correr — ou melhor, trotar — por duas voltas na lagoa. O normal era uma volta, ou seja, 2,7 km, mas atrevidamente resolvi encarar o desafio.

  Se eu fosse um cara normal, faria meus treinos calado e, quando estivesse próxima a data da corrida, diria às pessoas mais próximas que iria correr e pronto. Mas não sou essa pessoa. Como diz aquela música do Roupa Nova, “a vida para mim é o maior carnaval”, e carnaval é alegria, é festa, é pura farra. Assim, contei para todo mundo o meu projeto: do porteiro do prédio ao diretor-geral do tribunal, passando pelo garçom do boteco e a vendedora da loja.

  Para os mais distantes, era apenas um comentário sem importância; para os mais próximos, vinha a gozação habitual: que eu iria chegar, que iria aparecer na TV, que os atletas olímpicos que tremessem, e assim por diante.

  Na véspera da corrida, passei de carro pelo percurso e, aos poucos, fui vendo aquele monte de subidas e me achando meio louco. “Como pude me enfiar num negócio desses?”, pensava.

  Lembrava de um ou outro que tinha me dado força, dizendo que estava com pensamento positivo e torcendo por mim. O que começou como brincadeira agora tomava ares de seriedade. Algumas pessoas tinham sido influenciadas pelos meus comentários e, embora a vida seja um carnaval, não costumo desapontar quem gosto — muito menos a mim mesmo.

  Acordei na manhã da prova um pouco tenso. O sol prometia castigar os novatos e os falastrões, e eu estava incluído nas duas categorias. Minha mulher, filhos e netas torciam por mim e eu, embora receoso de não conseguir terminar a prova, pensava que, ao chegar, talvez nem pudesse chegar perto deles por causa do suor insuportável que já conhecia depois de cada treino.

  Logo nos primeiros metros, não estava muito à vontade. Sentia-me exposto correndo na pista, com todo aquele povão assistindo. A sensação era de que todos olhavam para mim, como se eu corresse sozinho. Achava-me um bicho no zoológico. Incomodavam-me o tumulto da plateia e os olhares curiosos.

  Aos poucos, porém, isso foi passando e, mais próximo do final, os gritos de incentivo e as pessoas nas portas das casas oferecendo duchas aos últimos corredores, como eu, tornaram-se um estímulo inesperado.

  — Força! — diziam uns.
  — Falta pouco! Vocês já chegaram até aqui! Coragem! — diziam outros.

  Palavras que, aparentemente, não passam de palavras, mas que traziam novas energias para minhas pernas combalidas, destreinadas e cinquentonas.

  Foi assim que, depois de uma hora e vinte, cheguei à reta final. Subi os últimos metros com a língua de fora. A linha de chegada parecia se afastar de mim. Já tinha esquecido da família e só pensava em chegar.

  O suor escorria, as forças literalmente acabavam e, inesperadamente, lá junto à chegada, vi minha mulher, meus filhos e netas gritando e agitando os braços como se eu fosse o grande vencedor.

  Alegria enorme. Energia renovada. Abraços suados em todo mundo. Regras de etiqueta esquecidas, boa educação esquecida, cheiro horroroso de suor esquecido. Abracei e beijei todos e me senti um vencedor de verdade.

  Naquele momento, eu era realmente o maior. A satisfação no rosto de cada um deles compensava o esforço e me lembrava por que eu estava fazendo aquilo.

  Minha netinha de quatro anos perguntou se eu havia ganhado a corrida. Respondi que sim, que o vovô venceu.

  Era a pura realidade.

  Eu venci.

  Venci sem pódio, sem anúncio oficial, mas venci.

  Valeu a pena. Valeu a pena correr. Valeu a pena ser marido, pai e avô.

  Viver vale a pena.

                                                                        Campinas, 28 de setembro de 2003
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 14/02/2026
Alterado em 07/03/2026
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