Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
COLAÇÃO DE GRAU 🟡㉙
A Rita avisou-me que, na sexta-feira, seria sua colação de grau e que, se eu quisesse, poderia ir até a faculdade para assistir. Como naquele dia eu tinha compromissos no Tribunal, não me animei com a ideia.

  A minha colação de grau, ocorrida há milênios, aconteceu em um momento de greve de funcionários e professores. A faculdade estava uma sujeira só: os banheiros imundos, papéis e roletes de poeira por toda parte. Não havia lugar decente para o diretor juntar todos os formandos. Ele nos reuniu sob uma escadaria e, depois de nos fazer repetir umas palavras que só algum tempo depois percebi que eram um juramento, nos declarou bacharéis.

  Essa era a minha referência de colação de grau: uma formalidade burocrática sem nenhuma importância.

  Como eu tinha um compromisso, resolvi não ir.

  No dia, a Rose me ligou sugerindo que eu desse um jeitinho de dar uma passada por lá. Coincidentemente, foi possível, e saí do escritório deixando avisado que iria a um lugar para, embaixo de uma escada, ver um bando de gente repetir umas palavras estranhas e logo estaria de volta.

  As surpresas começaram já na chegada. Na portaria tive que me identificar e dizer o nome da formanda para ser autorizado a entrar.

  — O senhor sabe onde é?

  — Não — respondi, achando estúpida a pergunta.

  — É no anfiteatro — e me instruiu como chegar ao local.

  Segui as informações pensando que devia haver alguma coisa muito alta naquele lugar, já que havia um anfiteatro embaixo de uma escada.

  No caminho, havia legiões de fotógrafos em cada esquina. Todos que passavam eles paravam e insistiam em fotografar por vários ângulos. As mulheres estavam todas de roupa de gala e os homens de terno e gravata. Achei que estava acontecendo algum outro evento na faculdade.

  A mim, sozinho, os fotógrafos não paravam. Acho que viam um negão, de cabeça raspada e de terno, e pensavam:

  — Esse aí deve ser algum segurança, não vale a pena queimar filme.

  Para reforçar a ideia de ser um segurança, tentei fazer cara de bravo. Como tenho dificuldade nesse quesito, fiz cara de quem está apertado para fazer xixi e fui em frente. Funcionou.

  Quando cheguei ao anfiteatro, as fichas começaram a cair. A coisa seria diferente. Nada de banheiros sujos, nada de improvisos. Pelo contrário: eu presenciaria uma solenidade digna de alguém que, por cinco anos, perseguiu um objetivo.

  Fui conversar com os organizadores, conferi o nome da menina direitinho, vi todos os formandos ajeitando suas becas, reparei na decoração solene do anfiteatro e fiquei esperando meu pessoal chegar.

  A decoração, importante ressaltar, era cheia de frufrus (frufrus são panos — na verdade, cortinas deitadas. Pegam-se as cortinas que se usam verticalmente e amarram na horizontal perto do teto. Se as cores do frufru forem alegres, o ambiente é festivo; se forem escuras, é solene).

  Logo chegaram todos e, a partir daí, os fotógrafos não nos deram mais sossego. De segurança fui promovido a pai da formanda e, todo orgulhoso, posava de bacana.

  Raquel, o tempo todo com aquele sorriso gostoso e bonito que todos adoram, distribuía cumprimentos, beijos e abraços sem dó. Parecia flutuar no ambiente.

  Depois que ela entrou para os preparativos, ficamos na plateia aguardando o grande momento. De vez em quando eu puxava conversa com alguém só para, fingindo dar pouca importância ao fato, dizer:

  — É minha filha, sabe? Ela está colando grau hoje...

  Houve discursos de professores, de diretores, do paraninfo e do representante dos alunos. Tudo isso tem um sabor diferente quando estamos emocionalmente envolvidos com o evento. O que a princípio parece uma chatice traz, na verdade, novas emoções ao velho e orgulhoso pai.

  Cada formando, chamado em ordem alfabética, demorava pouco mais de um minuto desde o anúncio do nome até que se sentasse novamente. Lamentei não ter colocado o nome dela de Amélia, achando que, como eu, ela estava muito aflita.

  Finalmente o mestre de cerimônias a anunciou e ela levantou-se para cumprimentar toda a mesa, assinar o livro e tornar-se advogada.

  Eu tinha programado assobiar, fazer um aceno diferente, qualquer coisa para chamar sua atenção; no entanto, fiquei ali batendo palmas mecanicamente enquanto, como que em câmera lenta, ela cumpria todo o ritual.

  Para mim, alternavam-se no palco a advogada e a menininha que carreguei no colo, que troquei as fraldas, que não saía sem dar a mão para o papai ou para a mamãe.

  A quase procuradora municipal e a garotinha fazendo alguma travessura se mesclavam.

  Nesses momentos costumo ficar mudo. A emoção me força um estranho silêncio. Não digo nada e nada ouço. O tempo parece ter uma forma diferente de fluir. As lembranças ficam embaralhadas com os acontecimentos presentes e, por ser do século passado, esforço-me para segurar uma lágrima que anseia dos meus olhos sair.

                                                                            Campinas, 11 de janeiro de 2004
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 14/02/2026
Alterado em 07/03/2026
Comentários