Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
EU IMAGINEI 🟡⑳
— Então o senhor bateu em sua mulher por causa de um simples bolo.

— Não doutor. Não é bem assim. Ela apanhou por causa de princípios. Por causa da honra, por causa da honestidade. Por bens perdidos ao longo das últimas gerações.

              O homem falava apenas ao delegado, mas parecia estar se dirigindo a uma plateia. Parou um pouco e ficou olhando para cima como a buscar dados na memória ou maneiras de se expor.

              — Eu tirei o bolo Pullman de cima do armário e coloquei sobre a pia. Apenas isso doutor, foi só o que eu fiz.

              — E então, seu Fernando, o que aconteceu em seguida.

              — Eu coloquei o bolo ainda lacrado sobre a pia e fui para a sala. Viviane chegou na sala, me olhou com aquela cara de quem condena o pior criminoso e disse:

              — Você já comeu bolo, portanto, não quer comer mais nada, não é?

              — Eu??? — perguntei assustado — comi que bolo?

              — O bolo pullman que você destroçou em cima da pia, não se faça de santinho.

              — Doutor, eu comecei a perder as estribeiras naquele momento. Será que eu estava ficando louco? Será que alguém havia invadido a minha casa naqueles cinco minutos só para comer bolo? O que estaria acontecendo? Cheio de dúvidas, perguntei a ela:

              — Você tem certeza que o bolo que está na pia está aberto? Certeza? Certeza?

              — Veja bem doutor— ele interrompia o relato se dirigindo ao delegado— dei todas as chances para que ela voltasse atrás, se redimisse.

              —Tenho sim. Tenho certeza —ela respondeu— e ainda está cheio de migalhas em volta do bolo, migalhas pela pia e migalhas por todo o chão da cozinha.

—Eu me levantei devagar doutor, devagar mesmo. Tinha medo do que ia ver.  Fui até a cozinha e ela me seguindo, me acusando, me condenando, doutor.

O delegado acompanhava o relato recostado em sua poltrona de espaldar alto. Era um homem de feições endurecidas por penosas batalhas, tinha uma discreta cicatriz no queixo, cabelos levemente grisalhos e usava um óculos ray-ban, mesmo tendo cortinas em sua sala, talvez para disfarçar parte de suas expressões.

—Cheguei ao lado da pia e encontrei o bolo intacto, lacradinho da silva, do mesmo jeitinho que eu o havia deixado ali — continuou Fernando com expressão de quem esmiúça um assunto— em volta do bolo e no restante da pia estava tudo impecavelmente limpo. A cozinha da mesma forma, sem nada, absolutamente nada de migalhas pelo chão.

O delegado acompanhava o relato agora com visível interesse.

—Aí, doutor, eu cheguei pra ela e perguntei: cadê o bolo com a embalagem destroçada? Cadê as migalhas pela pia? Cadê o chão todo sujo?

Ele interrompeu a história deixando um longo silêncio. Ajeitou-se na cadeira, encarou o delegado olhando firme em seus olhos ocultos pelo ray-ban e continuou:

—Sabe o que ela respondeu? Doutor.

—Não tenho ideia.

—Ela olhou pra mim, sem qualquer expressão, expressão zero, e respondeu:

—É, acho que me enganei.

—Acho? — respondi já pegando a frigideira que estava sobre o fogão— acho né?

—Ela não teve tempo de responder, doutor.  Bati com a frigideira com toda a minha força em seu rosto. Foi uma pancada muito, muito violenta, doutor. Ela já sem sentidos deu alguns passos para trás, bateu as costas e a cabeça na parede e foi caindo no chão devagar, quase em câmara lenta, com sangue escorrendo pela cara toda.

O delegado estava perplexo, mas parecia pensar em algo distante daquela sala. Talvez vivesse situações parecidas e não tivesse tido coragem para acertar as coisas com uma frigideira.

— Cheguei perto dela ainda com a frigideira na mão. Ela já tinha se recuperado um pouco. Me abaixei e perguntei em voz bem baixa: eu não entendi direito. Você acha que se enganou? É isso? Você acha? Acha?

— Não, não é isso — ela respondeu com enorme dificuldade para formular as palavras, o fluxo de sangue a fazia tossir interrompendo a frase — eu vi apenas o bolo em cima da pia e o resto eu imaginei... imaginei... me desculpe, o resto eu imaginei.

— Foi então, doutor, que eu me levantei, peguei o telefone e chamei a ambulância.

O delegado abaixou a cabeça, tirou o ray-ban e coçou o queixo sem dizer uma palavra. Se algum policial amigo estivesse por ali, saberia que apesar de destemido e acostumado a enfrentar os mais perigosos bandidos, naquele momento ele se sentia um covarde. Um grandessíssimo covarde.



Campinas, 15 de dezembro de 2011
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 14/02/2026
Alterado em 07/03/2026
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