FEITIÇO 🟡⑲
Sueli e Nicolas estão vivendo um tórrido caso de amor. Embora estejam bem longe da juventude, parecem adolescentes. O caso é que o ex-marido de Sueli não lhe dá sossego. Duas, três, às vezes mais vezes por semana aparece assim, do nada, na loja de cortinas de Sueli e fica por lá, dando indiretas, fazendo comentários, não raro provocando brigas.
— Não sei como me livrar desse homem — disse Sueli, com ar consternado, a uma amiga, e continuou — não quero dar um fora como se deve porque ele é uma pessoa doente e sei lá o que pode acontecer.
— Por que você não vai no Caboclo Arranca Rabo?
Perguntou a tal amiga, a título de sugestão. Depois explicou a fama do tal Caboclo, contando os casos que ele já tinha resolvido e o fato de ele não ser ligado a nenhuma religião afro-brasileira.
— Parece que o negócio dele é meio vodu. Coisa braba mesmo.
Falou em voz mais baixa, como a confessar um grande segredo. Sueli pegou os detalhes e marcou uma visita. Caboclo Arranca Rabo só atende às sextas-feiras, das dez até meia-noite. Quando é sexta-feira treze, em que a procura é maior, a consulta tem que ser marcada muito antes; agora só tem vaga para o ano que vem.
Sueli não contou nada ao namorado. Na sexta-feira agendada chamou sua filha, a Joana, que a muito contragosto foi acompanhar a mãe.
Era uma casa muito antiga, ficava no alto de um morro e não tinha nenhum vizinho. Embora estivesse uma noite bonita e cheia de estrelas, quando entraram na casa sentiram frio e uma estranha umidade. De repente, parecia que ia chover.
Por volta da meia-noite o Caboclo chamou as mulheres. Atravessaram uns dois cômodos e, por fim, entraram na sala onde seriam recebidas. Era um local meio sinistro; a parca iluminação vinha de algumas velas que ficavam ao pé de imagens de pessoas desconhecidas. Um cheiro forte e enjoativo inundava o local. As sombras balançavam na parede e a figura de Caboclo Arranca Rabo, fumando um cachimbo e sentado em uma cadeira de espaldar alto, era assustadora.
Com um gesto ele indicou um banco de madeira para as duas se sentarem e ficou de cabeça baixa e em silêncio por um longo tempo. Sueli quis dizer boa noite, mas ele imediatamente levantou o braço em sinal de silêncio e emitiu um único som:
— Schhhhhhhhhhhh!
As mulheres ficaram ainda mais assustadas. Uma forte chuva começou a cair. Ouvia-se claramente o tilintar da água no telhado, mas o Caboclo Arranca Rabo continuava imperturbável em sua poltrona.
Por fim, ele olhou diretamente nos olhos de Sueli e perguntou sem preâmbulos:
— O que a senhora quer?
Mal ele terminou a frase, ouviu-se um enorme trovão. Sueli levou um susto que quase caiu do banco, mas o Caboclo parecia nada ter ouvido.
O medo tomava conta das mulheres. Sueli estava tremendamente arrependida de ter ido ali e Joana só pensava no noivo, o Laércio. Nunca tinha sentido tanto a falta dele como naquele momento.
Sueli reuniu uns fiapos de coragem e, em voz muito baixa, falou:
— É o meu ex-marido. Ele não larga do meu pé e estou querendo que o senhor me ajude a me livrar dele.
Caboclo Arranca Rabo se levantou de um salto. Parecia que voava pela sala. Ao mesmo tempo, outro trovão fez estremecer o local e o coração das mulheres. Desta vez, além do barulho, o clarão do raio iluminou a sala como se fosse um flash muito potente.
Quando se deram conta, Caboclo Arranca Rabo estava bem junto delas, de cócoras. Só então notaram que ele usava uma capa vermelha por dentro e preta por fora.
Ele se levantou lentamente e, com o som da tempestade de fundo, falou:
— Anote o que eu vou falar. Só falo uma vez.
Joana, que já estava preparada, pegou o bloco e a caneta.
— Você vai precisar de mais ou menos meio quilo de terra de cemitério.
Antes que Joana anotasse, outro raio fez tudo tremer.
— Onze ovos frescos, um para cada ano em que vocês viveram juntos, ovos de tamanhos diferentes, um pouco da água da primeira chuva depois da lua cheia, um pequeno barco preto e uma toalha virgem e preta.
Terminou de falar, virou de costas e sentou-se novamente na cadeira de espaldar.
— Numere os ovos do menor para o maior, escrevendo de um a onze. Em todos escreva também o nome inteiro do ex-marido. Escreva o nome por fora do barco. Numa sexta-feira, antes do sol nascer, coloque os ovos no barco, cubra com a terra do cemitério e com a toalha. Depois que o sol se puser, leve até um rio grande, jogue a água da chuva por cima e solte o barco.
Depois de tudo explicar, aproximou-se de Sueli e perguntou se ela tinha certeza, pois depois disso nunca mais veria o homem. Não tinha volta.
Ela confirmou.
— Quando tudo se misturar… a água da chuva, a terra dos mortos, as vidas que não começaram e a toalha negra… então seus destinos estarão para sempre separados. Podem ir.
Elas saíram e, estranhamente, parecia que não havia chovido tanto. O carro estava apenas um pouco molhado.
O que deu mais trabalho foi conseguir a terra. Foram os três ao cemitério: Sueli, Joana e Laercio. No portão, as duas não quiseram entrar e mandaram Laércio.
— Pareciam que estão olhando vitrines de shopping — reclamou ele depois — enquanto eu tive que cavar aquela terra toda!
Joana ficou encarregada de escrever os nomes nos ovos e no barco, mas passou a tarefa para Laercio.
Na sexta-feira combinada, ao pôr do sol, foram até um rio na estrada para Mogi Mirim e fizeram tudo como o Caboclo mandara.
No carro, voltando para casa, o telefone de Sueli tocou. Era Nicolas.
— Oi, minha vida, tudo bem?
— Não posso falar muito. Estou no aeroporto. Surgiu um problema inesperado e preciso passar um tempo fora.
— Mas como? Pra onde você vai? Quando volta?
— Não sei quando volto. Algumas semanas… talvez meses.
A ligação caiu.
Laercio então comentou:
— Era o Nicolas? Eu ia pedir pra você perguntar uma coisa pra ele.
— O quê? — perguntou Joana.
— Se o nome dele tem acento ou não.
— Claro que tem — respondeu Joana — é proparoxítona!
Sueli, já assustada, perguntou:
— Pra que você quer saber isso?
— É que eu escrevi o nome sem acento…
— Onde você escreveu o nome dele?
— Nos ovos e no barquinho.
— Como assim? — gritaram as duas. — Era pra escrever o nome do Valter!
— Ué… achei que era o Nicolas.
Sueli colocou as mãos na cabeça e começou a chorar.
Campinas, 1 de fevereiro de 2013
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 14/02/2026
Alterado em 07/03/2026