JOAQUIM E ANÉSIA 🟡⑱
Gosto de saber como os casais se conheceram. Por vezes são histórias interessantes.
Ronaldo, um amigo meu casado há quarenta anos, na juventude viu pela primeira vez aquela que seria sua esposa. Olhou bem para ela e disparou a pergunta:
— Você quer se casar comigo?
Ela, chegando em casa, contou para a mãe que um rapaz desconhecido a tinha pedido em casamento. A mãe, assustada, perguntou o que ela tinha respondido.
— Eu aceitei rapidinho. É um cara diferente e bonitão.
Uma outra amiga me contou que era muito jovem e trabalhava em um escritório. Certo dia chegou um grupo de rapazes de outro departamento. Ela não os via, apenas os escutava conversando, e se encantou pela voz de um deles. Disse que o coração parecia querer saltar do peito.
Demorou um tempo para ver de quem era aquela voz. Quando descobriu, ficou pasma olhando disfarçadamente para o tal rapaz. Mas o que a fisgou de vez foi o fato de ele estar com o pé machucado. Ao vê-lo mancando, se apaixonou na hora.
Hoje eles têm quarenta anos de casados, filhos, netos e uma vida calma e feliz.
Eu mesmo vi pela primeira vez Sarah na foto de um aplicativo de celular. Ela me seduziu de imediato. Havia centenas e centenas de fotos de mulheres no aplicativo, mas Sarah tinha algo completamente inexplicável. Casamo-nos, e essa história já tem quatro anos.
Mas o encontro de Joaquim com Anésia acho o mais inusitado.
Soube da história quando estava em visita à casa de Cacilda e Adilson, irmã e cunhado de Sarah. Eles vivem no interior de Minas, em uma pequena chácara onde plantam quase tudo e criam porcos, galinhas e por aí afora.
Conversávamos na cozinha principal. Nela há um fogão a lenha que fica aceso o dia inteiro e um forno também a lenha. Nas prateleiras, como enfeite, há plásticos cujas cores, assim como tudo o mais, carregam um tom meio embaçado de fumaça.
As madeiras do telhado, sem forro, trazem de leve a cor da fumaça. As chaminés funcionam bem, mas alguma fumaça sempre fica e dá esse colorido especial aos utensílios, paredes e móveis.
Ali, sentado na cozinha, Adilson, pitando um cigarro de palha e tomando um dedinho de cachaça, contou que trabalhou em uma fazenda onde havia um homem chamado Joaquim.
Um sujeito baixo e forte — nesse ponto ele esticou a mão indicando o tamanho da figura. Joaquim vivia sozinho, e os amigos insistiam em arrumar uma mulher para ele.
Preciso explicar que o “mineirês” de Adilson, associado a uma dicção pouco comum, dificulta um pouco o diálogo, obrigando-me a ficar muito atento. Ainda assim, às vezes perco parte da conversa e tenho de pedir que repita:
— Como é mesmo, Adílson?
E ele explica melhor, sem perder o fio da meada nem o sabor do caso.
Pois bem. Certo dia os amigos, eufóricos, afirmaram que encontraram uma mulher para Joaquim. Ela vivia em uma cidade perto e era a cara dele, perfeita, diziam.
— Então vambora buscá, uai!
Foi a resposta de Joaquim. E foram.
— A mulher era pingaiada — disse Adílson — morava na rua.
Abri os olhos, espantado:
— Como assim morava na rua? Era mendiga?
Ele respondeu com naturalidade:
— Vivia bêbada pelos bares e praças da cidade. Mas Joaquim também era pingaiada. Trabalhava na fazenda, mas estava sempre cheirando a cachaça.
Passado o espanto, ele continuou dizendo que chegaram à cidade já de noite e não acharam a mulher nos lugares costumeiros.
Passavam pelos bares perguntando pela Anésia. Todos a conheciam e davam fiapos de informação:
— Bebeu aqui de manhã — dizia um.
— De tarde foi pra tal bar — respondia outro.
E eles, com uma lanterna, procurando nos becos e praças onde alguém poderia estar dormindo.
Em dado momento viram um monte de trapos que parecia esconder uma pessoa. Chegaram perto, puxaram os panos e iluminaram o rosto.
Era Anésia.
Joaquim, a essa altura, parecia hesitar, mas dizia que, já que tinham ido, era melhor levarem a mulher.
Pegaram a bêbada e colocaram no carro.
Eu, boquiaberto, perguntei:
— Por que Joaquim ficou na dúvida?
— Porque Anésia era muito feia. Uma preta feia, muito, muito feia. Chegava a dar dó. Mas Joaquim era um preto muito feio também.
Ele riu bastante ao dizer isso.
— E daí? — perguntei ansioso.
— Levaram a mulher pra fazenda e ela ficou lá.
— E deu certo? Ficaram juntos?
— Deu, uai! Eles têm um filho de quinze anos. Mas bebem um garrafão de pinga por semana.
Campinas, 11 de setembro de 2018
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 14/02/2026
Alterado em 07/03/2026