JUMENTIO 🟡⑰
Meus pais, até onde me lembro, sempre tiveram um modo de vida pouco usual. Ou estavam de bem, divertindo-se com tudo e com todos, ou, diante de uma desavença qualquer, meu pai saía de casa por vontade própria ou minha mãe o expulsava sem direito a apelação.
Essas ausências do meu pai duravam de alguns dias até quatro ou cinco anos, dependendo do tempo que minha mãe levava para esquecer a briga e, apaixonada, desconsiderar as ingratidões, maldades, desamor e outros adjetivos mais pesados.
Com tudo esquecido, bastava localizar e buscar o marido que, por sua vez, como bom cúmplice, amante e parceiro, deixava escandalosas pistas de seu paradeiro.
Com a idade avançada, o velho não tinha mais para onde nem como fugir, principalmente depois que sofreu dois derrames. Assim, na primeira briga que o levaria a um novo desaparecimento, o jeito foi sair da casa, mas não do quintal.
Explico: meu pai foi morar em um minúsculo quarto que antes guardava ferramentas e outras quinquilharias no quintal. Construiu-se um pequeno banheiro, e ele vive ali há mais ou menos dez anos.
Agora, por conta de novos derrames, o coitado perdeu toda a noção de higiene. Para completar, vem sofrendo de incontinência urinária, o que faz com que viva com a calça molhada de xixi.
Para piorar ainda mais, só toma banho uma vez por semana ou a cada quinze dias, dependendo do clima.
Essa situação toda, para minha mãe, tem sido motivo de constantes piadas. Nada é escondido: ela faz a gozação na frente dele mesmo, e a resposta do velho é apenas rir.
Minha mãe sempre gostou de uma boa piada e de brincar com as pessoas. Ninguém nunca se incomodou com isso nem com os apelidos que costuma colocar nos outros.
Ela é considerada por todos como um tanto folclórica.
Entre seus irmãos, meus tios, há o Nego, o Lico, a Turca, a Monga, o Fafá e daí por diante. Normalmente o apelido enfatiza alguma característica da pessoa.
Quando crianças, minha irmã era a Espoleta, e eu, o Índio.
Meu pai, depois da separação final — em que um pequeno quintal divide as casas —, passou a ser comumente chamado de Jumento, que no sotaque nordestino de minha mãe soa como “Jumentio”.
Outras vezes ele é tratado por Dito Cujo e, quando ela está com muita raiva, por “Miseravi”. Este último ela não usa na frente dele, pelo menos quando há testemunhas por perto.
Outro dia, tentando promover um clima mais harmônico entre os velhos, pedi à minha mãe que não falasse mais no passado. Ou seja, que deixasse quietos os motivos das brigas ocorridas há cinquenta anos.
Argumentei que, já que ela não esquecia as maldades sofridas, pelo menos não falasse mais nelas.
A velha concordou e, em pouco tempo, o clima entre os dois melhorou sensivelmente.
Animado pelos resultados, fiz uma pequena chantagem: prometi fazer algo que ela queria, mas, em troca, ela não chamaria mais meu pai de “Jumentio” nem de Dito Cujo — apelido este que não sei bem o que significa, mas acho que coisa boa não é.
Minha mãe topou na hora, e assim tem sido.
Ontem liguei para ela e, como sempre, estava afoita para contar novidades.
O caso era que meu pai, na fila do banco onde ia receber a aposentadoria, revelou para quem quisesse ouvir sua senha eletrônica, que, por sinal, era 1, 2, 3, 4, 5 e 6.
Quem presenciou tudo foi minha tia Gildete, que, de meio pão-dura, também tem seu apelido.
Pois bem, foram estas as palavras de minha mãe:
— Menino, nem te conto o que o “Cheroso” fez ontem!
— Que cheiroso, mãe?
— Teu pai, oras!
Mal consegui conter o riso.
Ela continuou:
— A Turca “tava! na fila do banco, quando o “Cheroso” passou por todo mundo, foi na máquina e…
Pronto. Meu pai estava com apelido novinho em folha.
Proibidos o “Jumentio” e o “Dito Cujo”, minha mãe encontrou nos novos hábitos de higiene do velho um apelido que não tenho como rebater.
Só me resta rir e imaginar o “Cheroso” nas diversas situações que certamente ainda virão.
Novas aventuras nos aguardam.
Campinas, 11 de julho de 2008
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 14/02/2026
Alterado em 07/03/2026