Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
O DOUTOR E O BODE 🟡⑯
O Dr. Luciano, um arquiteto bem-sucedido, foi um dos pioneiros na implantação de uma ONG de incentivo a estudos esotéricos na cidade de Limeira. Por conta de sua profissão, ficou incumbido da escolha do terreno, do projeto e da construção do prédio que abrigaria a sede local.

Como o grupo não dispunha de dinheiro suficiente, todo tipo de doação era bem-vindo, e foi nesse clima que conseguiram uma infinidade de materiais da demolição de um armazém na Rua da Mooca, em São Paulo.

Coube também ao Dr. Luciano acompanhar o carregamento e transporte dos materiais. Alguém arranjou um caminhão e um motorista que, por preço bem camarada, faria o serviço.

Na hora combinada, o Dr. Luciano chegou à frente do armazém demolido. Lá estava o caminhão e o motorista, o Seu Zito, um homem pequeno, de modos tranquilos e aquela aparência sofrida das pessoas simples. Vestia calça e camisa surradas e sujas de graxa e outras manchas indefiníveis.

O caminhão, de tão velho, aparentava ter sido usado na Primeira Guerra Mundial, onde deve ter sido alvo de algumas bombas pouco amistosas. Na carroceria havia um bode amarrado.

É isso mesmo: um bode vivinho da silva, ali, na Mooca, em plena São Paulo do século XX.

— Seu Zito, como vamos levar a carga com essa cabra aí em cima? — perguntou o Dr. Luciano, um tanto apreensivo.

— Não é cabra não, sinhô, é um bode. O sinhô num pricisa se preocupar com ele, não. Pode dexá que com o bode eu me viro.

Falando isso, tirou o bode da carroceria e o amarrou em um poste na movimentada rua da capital paulista.

O caminhão começou a ser carregado, com o Dr. Luciano mostrando-se um ajudante meio desajeitado. Por diversas vezes deixava pequenos espaços na carga pensando no bode, mas o Seu Zito repetia o velho refrão:

— Fica calmo, seu dotô, com o bode me preocupo eu...

Outras vezes, distraído com o carregamento, o Dr. Luciano se esquecia do bode, até ouvir um brado inconfundível:

— Mééééé...

E lá voltava a preocupação: onde aquele bode iria parar?

Depois de carregado, o caminhão desafiava as leis da gravidade. De tão alta a carga, parecia que a qualquer momento iria tombar.

O Seu Zito não demonstrava preocupação alguma. Já o Dr. Luciano, pouco versado nas artes de transporte de cargas e de bodes, escondia sua aflição.

Imaginava que o bode iria na boleia, entre ele e o motorista — quem sabe até em seu colo — durante todo o trajeto de São Paulo a Limeira.

Pensou até em ir de ônibus, mas suas roupas estavam tão sujas que isso era impossível.

Terminada a amarração da carga, o Seu Zito desamarrou o bode do poste, colocou-o nas costas e foi escalando o monte de materiais até o topo, algo comparável à altura da Torre Eiffel. Lá em cima, amarrou o bode em algum ponto invisível.

O Dr. Luciano sentiu alívio por não dividir a boleia com o animal, mas passou a se preocupar com a queda fatal que poderia acontecer a qualquer momento.

Seguiram viagem pela movimentada São Paulo de um sábado ao meio-dia.

Sempre que o caminhão parava no farol, o Dr. Luciano puxava conversa com o Seu Zito, virando de costas para a rua, para não ser reconhecido por conhecidos — ou pior, por concorrentes.

Em um desses faróis, alguém gritou de um boteco “pé sujo”:

— E aí, quer vender o bode?

O Dr. Luciano gelou.

O Seu Zito respondeu calmamente:

— Depende do preço, uai!

— Que idade tem o danado?

O Dr. Luciano foi se encolhendo no banco imundo do caminhão.

O Seu Zito encostou o caminhão, subiu na carga e trouxe o bode para avaliação.

— Méééééé!

O possível comprador era um daqueles que venceram na vida e faziam questão de mostrar. Usava camisa de seda vermelha quase aberta, exibindo o peito cabeludo e correntes de ouro. Pulseiras, relógio enorme, unhas dos mindinhos compridas.

Formou-se uma plateia animada, dando palpites no negócio.

O Dr. Luciano tentava esconder o rosto em uma flanela usada para limpar tudo: painel, tapete, nariz e sabe-se lá mais o quê.

Por fim, fecharam negócio.

O bode ficou no boteco.

Depois de alguns quarteirões, o Seu Zito virou-se calmamente:

− Será que o dotô si importa de nois dá uma passadinha na casa de um irmão meu, di modis a eu pegar outro bode?



Campinas, 8 de janeiro de 2008
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 14/02/2026
Alterado em 07/03/2026
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