ROCHINHA đĄă
As crianças detestaram a comida, o local, os garçons. Tudo.
Elas tinham razĂŁo. Foi um almoço terrĂvel, principalmente quando se estĂĄ de fĂ©rias na cidade de Santos.
Por conta disso, no dia seguinte Madalena e o Silas deixaram que as crianças escolhessem o restaurante, e assim todos foram ao McDonaldâs.
Santos, cidade turĂstica, primeiros dias de janeiro.
McDonaldâs na avenida da praia.
Calor de quarenta graus Ă sombra.
Nada de lugar para estacionar o carro.
O Uninho vermelho dava voltas e voltas nos quarteirÔes da redondeza, com quatro crianças no banco de trås e os pais fazendo de tudo para demonstrar alegria e entusiasmo.
O McDonaldâs estava lotado.
Lotado e lotado.
O padrĂŁo de atendimento tinha sido perdido pelo menos uma semana antes.
Os gritos do Silas implorando para serem atendidos ajudaram, mas nĂŁo completamente, porque os quase cem mil adolescentes que estavam no restaurante gritavam mais alto.
Comidos os lanches, deixaram o restaurante e, para compensar a todos pelo sofrimento, resolveram ir Ă sorveteria Rochinha.
A Rochinha tem a fama de fazer o melhor sorvete de todo o litoral paulista e todos estavam ansiosos.
Sabiam que era perto do McDonaldâs, portanto deixaram o carro estacionado e seguiram caminhando para a esquerda.
Dois quarteirÔes e nada.
O calor parecia aumentar.
O barulho na avenida da praia desanimava qualquer cristĂŁo.
As buzinas, os escapamentos dos Înibus e das motos, a algazarra de uma avenida de praia em janeiro, tudo fazia os dois quarteirÔes parecerem quatro.
As crianças pulavam de um lado para outro.
O Juarez nĂŁo parecia ter pilhas novas.
Parecia ter uma bateria atĂŽmica instalada em algum lugar secreto.
Não parava de falar, de pular, de dar cambalhotas, de tentar subir nos postes e nas caixas de correio da calçada.
Seis quarteirÔes.
Madalena e Silas começam a achar que estå ficando muito longe.
Quando passaram de carro parecia que a Rochinha e o McDonaldâs eram muito perto um do outro.
NĂŁo conseguem pensar muito no assunto porque tiveram que tirar o Juarez de cima do ombro de uma estĂĄtua toda suja de cocĂŽ de pombo.
Dez quarteirÔes.
Silas e Madalena jĂĄ nĂŁo riem tanto.
As crianças parecem ligeiramente mais calmas.
Nenhum deles estĂĄ acostumado a caminhadas tĂŁo longas sob um sol que transformava a beira-mar de Santos no deserto do Saara em seus dias mais arrasadores.
O Juarez contenta-se agora em plantar bananeiras em cima dos bancos de jardim.
Quatorze quarteirÔes.
O casal começa a considerar a tese do Danilo, que afirma que a Rochinha foi tomada por ETES.
Uns temorosos homens vermelhos moradores do planeta MercĂșrio que pretendem sequestrar todos os sorvetes da Terra.
Os pés da Madalena doem.
A Jussara e a Lira se lamuriam.
O Silas procura um restinho qualquer de forças.
O Juarez, quem diria, estå finalmente quietinho, deitado na calçada, obrigando os transeuntes a desviarem o caminho.
Mais ou menos nesse ponto desistem do sorvete.
Com a desistĂȘncia vem a constatação lĂłgica de que terĂŁo que caminhar quatorze quarteirĂ”es de volta, sob o mesmo sol, muito, mas muito mais cansados, e arrastando o Juarez pelos pĂ©s.
Resolvem que o Silas volta de ĂŽnibus para pegar o carro, enquanto eles esperam na lanchonete da esquina.
O Silas sai para cumprir sua parte do plano.
O restante da famĂlia, quando chega Ă tal lanchonete, Ă© informado de que se trata de um bar.
SĂł vendem bebidas alcoĂłlicas.
Nem pensar em crianças.
Foram barrados e abandonados no deserto.
Sem ĂĄgua.
Sem camelos.
Quase sem vida.
O garçom, em um flash de cortesia, saiu até a calçada, apontou com desdém um banco de jardim e disse:
â VocĂȘs podem esperar aĂ, se quiserem.
Era como quem då uma esmola a alguém sujo, mal-encarado e fedorento.
Aceitaram agradecidos, desejando bĂȘnçãos e mais bĂȘnçãos ao bondoso garçom.
Ficaram os cinco, sempre sob o sol senegalĂȘs, esperando o Silas.
Madalena procurando animar as crianças.
Animar-se a si prĂłpria.
E ressuscitar o Juarez, que jazia encolhido e choroso embaixo do banco, com sua pilha atĂŽmica finalmente arriada.
Depois de dois anos, sete meses e quinze dias, o Silas encostou o carro.
Depois de todos sentados e o Juarez roncando dentro do porta-luvas, o Silas anunciou:
â VocĂȘs nĂŁo vĂŁo acreditar. A Rochinha Ă© ao lado do McDonaldâs, sĂł que no outro sentido.
O porta-luvas abriu-se como se tivesse estourado uma bomba lĂĄ dentro.
O velho Juarez saiu pulando e explicando qual seria o seu primeiro sorvete.
As outras crianças tiveram reaçÔes semelhantes.
A algazarra no carro fez Madalena repensar se queria mesmo continuar respirando no novo ano.
Outra vez a luta para estacionar o Uninho vermelho.
O calor mais malvado.
As crianças com o grau de ansiedade chegando perto do limite.
O sol e o suor trazendo aquela sensação de agonia para Madalena e Silas que, a essa altura, preferiam o Juarez dentro do porta-luvas.
Finalmente chegaram Ă sorveteria.
As crianças jå sabiam quais sabores de sorvete iriam tomar.
As discussÔes sobre o tema foram, desculpe-me, acaloradas.
Madalena e Silas jĂĄ salivavam.
Foi quando se deparam com o cartaz escrito Ă mĂŁo na porta de vidro:
âDesculpe-nos. NĂŁo estamos aceitando cartĂ”es de crĂ©dito ou dĂ©bito.
A mĂĄquina estĂĄ quebrada.
Somente dinheiro.â
â Eu nĂŁo tenho um tostĂŁo. Quanto vocĂȘ tem aĂ? â perguntou o Silas Ă Madalena.
Madalena nĂŁo respondeu de imediato.
Ela sabia que, quando dissesse que nĂŁo tinha um centavo, estaria decretando o inĂcio da terceira guerra mundial.
O fim do mundo era tĂŁo certo quanto imediato.
Lamentou que os ETES do Danilo nĂŁo tivessem cumprido seu plano.
Era uma pena a viagem de férias terminar junto com o mundo.
Mas ela nĂŁo lamentava de todo o descanso eterno.
Campinas, janeiro de 2012
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 14/02/2026
Alterado em 07/03/2026