Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
SEQUESTRO 🟡⑮
A Polícia Federal cerca meu apartamento.

Há muitos policiais vigiando a sacada e a área de serviço do apartamento com suas armas de mira a laser, para a hipótese de uma fuga repentina.

Algo em torno de dez policiais, em absoluto silêncio, param em frente à porta de entrada.

Todos estão vestindo coletes à prova de balas, capacetes com viseiras abaixadas, botas e cintos cheios de granadas e outras coisas esquisitas.

Com uma espécie de poste de ferro, se preparam para arrebentar tudo.

O chefe deles faz a contagem com os dedos.

Todos aguardam o três para dar um único e definitivo golpe.

Eu estou sentado no sofá, só de cueca samba-canção, tomando sorvete de creme e assistindo televisão.

De repente, ouço um enorme barulho.

Viro para a porta e vejo aquele monte de homens de roupa preta, armados de metralhadoras e avançando rapidamente em minha direção.

Eles gritam, apontando as armas:

— Mãos na cabeça! Mãos na cabeça!

Eu, assustado, com o sorvete derramando e sem entender nada, levo uma pancada na barriga e, em um piscar de olhos, estou com as mãos algemadas para trás e deitado no chão de barriga para baixo, com botas, cassetetes e metralhadoras me imobilizando.

Outros grupos de soldados entram ao mesmo tempo na cozinha, no escritório, nos dois quartos.

Ouço suas vozes:

— Cozinha, limpa!
— Escritório, limpo!
— Quartos, limpos!

Os homens que me imobilizam parecem relaxar um pouco.

Colocam-me de joelhos e o que parece ser o chefe deles olha minha cara com raiva e fala em um rádio:

— Águia, situação em terra sob controle.

Ouço o som do helicóptero se afastando.

O que parece ser o chefe se aproxima de mim e fala com cara de superior:

— Cadê a vítima?

— Que vítima? Acho que vocês entraram na casa errada...

Não consigo terminar a frase.

Uma coronhada de metralhadora no estômago me faz quase morrer de dor.

O grandalhão que me acertou grita para eu calar a boca.

Estou tossindo e quase vomitando.

O que parece ser o chefe levanta minha cara, segurando no meu queixo, e pergunta com voz suave e um risinho sarcástico:

— Diga onde está a vítima.

Eu olho para ele e respondo meio sem pensar:

— Não posso. O cara da metralhadora me mandou ficar calado.

Agora a pancada foi na cabeça.

Tudo se apaga.

                                    

Acordo com um balde d’água na cara.

Estou sentado em uma cadeira, ainda com as mãos algemadas para trás e vestindo apenas a cueca samba-canção.

Há um forte holofote em meu rosto.

Vejo apenas o vulto do que parece ser um homem uniformizado andando de um lado para o outro com um chicote na mão.

Ele se aproxima de mim e fala pausadamente:

— Então? Vai soltar a língua por bem ou vou ter que te ajudar um pouco? Onde é o cativeiro? Onde você escondeu a vítima?

Eu, sem fazer ideia do que ele está falando, sinto o medo tomar conta de mim.

Ele se aproxima e pergunta novamente:

— O Nino, onde está o Nino?

Minha cabeça dá voltas.

Nino deve ser apelido de Saturnino.

Não conheço nenhum Saturnino.

Lembro-me do Juscelino, amigo do tribunal.

Será que é ele?

Mas aí seria Lino e não Nino.

Busco desesperadamente na memória e nada.

Ninguém que pudesse ter o apelido de Nino que eu conheça.

Diante do meu silêncio, ele diz que vai refrescar minha memória e me mostra a foto de um cachorro poodle preto e pergunta quase cuspindo fogo:

— Onde você escondeu a vítima?

— Que cachorro é esse? — pergunto, entendendo cada vez menos o que acontece.

— Engraçadinho! É o cachorro da Bia e da Joana. O mesmo que você sequestrou depois de arrebentar o bar.

A conversa que tive com a Bia, minha namorada, volta à minha mente.

Ela mora em um pequeno apartamento em Sumaré.

A sala está muito bem decorada, mas há um bar que, embora não seja grande, destoa do ambiente, toma espaço, entulha o local e o pior: não serve para nada, porque ninguém que frequenta a casa bebe.

Ela tem também o tal Nino, o cachorro da foto.

No dia em que estive lá, depois de latir por dez minutos e lamber minha perna e minha mão, achou por bem subir no meu colo.

Fui salvo pelo Leonardo, namorado da Joana, que, como eu, não ama o cão preto.

Pois é, a título de brincadeira, sugeri que ela pegasse o Nino, fechasse dentro do bar e jogasse tudo pela janela.

Foi essa a conversa.

Será que o Nino fugiu de casa e, por causa desse papo, estavam me acusando de sequestro?

— Nós já sabemos de tudo — continua o interrogador. — Você está dificultando as coisas para você mesmo. Diga onde você escondeu o Nino e tudo fica bem.

Fico pensando em quem armou essa para mim.

A primeira hipótese é a minha ex-mulher.

Mas logo descarto essa possibilidade.

O ex da Bia...

É ele, claro.

Só pode ser ele.

Depois acho pouco provável.

Pensei no síndico do meu prédio.

Andam soltando puns no elevador e ele desconfia de mim.

Será que foi ele?

Não consigo concluir o pensamento.

Uma forte onda de choque invade meu corpo ao mesmo tempo em que escuto o som de um aparelho ligado.

O choque usado como tortura é algo de enlouquecer.

Parece que paralisa e sacode todo o seu corpo ao mesmo tempo.

Quando desliga, é uma moleza tão forte que você se sente derretendo.

— E aí? — ouço novamente a voz do interrogador. — Vai confessar ou não vai? Vou carregar mais a máquina de choque e agora vai ser para valer.

Fico pensando em colocar a culpa no Leandro.

Dizer que talvez tenha sido ele.

Ou, mais provavelmente, dizer que foi o ex da Bia.

Preciso desesperadamente ganhar tempo.

Ouço uma campainha:

Pemmmmmmmmmm.

Acho que é a máquina carregando para me dar mais choques.

Fico apavorado.

Acho que mijei na cueca, porque está tudo molhado e pegajoso.

Pemmmmmmmmmm.

A campainha insiste.

Pemmmmmmm. Pemmmmmmmm. Pemmmmm.

Abro os olhos devagar.

Vejo minha sala de casa intacta.

Ouço a campainha da porta insistindo.

Com a voz pastosa digo que já vou e levanto cambaleante.

Não sei se estava tendo um pesadelo ou se era tudo verdade e agora é que estou sonhando.

Olho ao lado e vejo as coisas todas no lugar.

A TV ligada.

A porta inteira.

Nada de bagunça de policiais.

Olho o sofá e vejo tudo melado de sorvete.

Inclusive minha barriga.

Minha cueca.

Será que dormi com o sorvete na mão e tive um pesadelo?

Ando devagar em direção à porta.

Abro.

Aparece a Bia de salto alto, calça justa e toda sorridente:

— Olá, querido. Por que demorou tanto para abrir a porta?

Ela vai falando e entrando.

Beija meu rosto e vai para o meio da sala colocar a bolsa em cima da mesa.

Eu, sem saber ao certo o que está acontecendo, pergunto ainda com voz pastosa:

— Tudo bem com o Nino?

Ela se vira para mim, põe as duas mãos na cintura e pergunta:

— Então a primeira coisa que tu faz quando me vê é perguntar do Nino? Ainda mais tu que nem gostou do pobrezinho!

Ela fala e abre a bolsa para guardar a chave do carro.

Pega uma pequena carteira preta onde geralmente traz batom e maquiagem.

Naquele momento, tive certeza de que ela pegou um revólver.

Fiquei pasmo diante dela.

Senti o apartamento rodar.

Tudo escurecer.

As pernas começaram a dobrar.

Segurei na parede para retardar a queda enquanto ouvia sua voz cada vez mais distante:

— O que aconteceu? Você está bem? Neguinho! Neguinho!

Campinas, 28 de janeiro de 2013
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 13/02/2026
Alterado em 07/03/2026
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