PRIMEIRAS LEMBRANÇAS 🟡⑧
Outro dia me peguei buscando na memória qual seria a minha primeira lembrança desta vida. Descobri que tenho pequenos flashes de alguns acontecimentos ou situações.
Talvez o mais significativo seja minha mãe trabalhando em casa e cantando. Quer estivesse lavando a louça, lavando roupas, arrumando a casa ou cozinhando, estava sempre cantando. Mais tarde soube que se tratavam de hinos evangélicos entremeados de canções populares da época.
Lembro-me dela de costas para mim, lavando pratos e cantando, e eu, muito pequeno, em pé no batente da porta, olhando. Creio que minha irmã, que é três anos mais nova, ainda não tivesse nascido, e que eu também não soubesse falar. Ainda hoje posso sentir o enorme carinho que ela tinha por mim. No jeito de falar, de me tratar, de me corrigir. No seu jeito.
Um dia ela tirou os móveis de um cômodo e encerou o chão. Lembro vagamente do cheiro da cera. Depois, como não tinha enceradeira, ela tinha que passar um pano seco no chão e, nessa hora, colocou uma música na vitrola, subiu em cima do pano e lustrava o chão cantando e dançando. Eu, pequeno, novamente no batente da porta, olhando. Ela foi até onde eu estava, mandou que eu subisse em seus pés, esticasse as mãos para cima e continuou dançando comigo em cima de seus pés.
Hoje percebo que ela tinha uma alegria imensa em cuidar da casa, do filho e do marido. Não me lembro do meu pai nesta época. Não tenho lembranças dele chegando à noite, jantares ou coisas assim. Creio que essas lembranças de minha mãe sejam muito fortes e ofusquem as demais.
Às vezes havia grandes reuniões em casa ou na casa de algum tio. Nesses momentos, lembro do barulho da panela de pressão e da alegria reinante entre os adultos. Meu pai ria o tempo todo. Ora conversando com um, ora conversando com outro, mas sempre rindo.
Às vezes íamos ao açougue: meu pai, minha irmã e eu. Meu pai conversava com o açougueiro, sempre rindo, é claro, e na hora de moer a carne, o socador de madeira que era colocado para pressioná-la ficava rodando como um pião, e eu e minha irmã adorávamos ver a ponta de madeira indo para um lado e para o outro.
São lembranças de uma casa de alegria, onde rir e cantar eram coisas corriqueiras. Mas acho que dançar sobre os pés de minha mãe é a mais antiga e doce memória que trago.
Campinas, 1º/10/2018
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Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 06/02/2026
Alterado em 07/03/2026