Futebol e mulheres 🟡⑥
Cheguei para o tradicional chope com os amigos e, da porta do boteco, já pude ouvir o comentário da galera:
— Hoje ninguém aguenta esse santista...
Não era para menos. O Peixe, de maneira magistral, tinha passado pelo Grêmio e estava na final da Copa do Brasil. É claro que eu estava com a camisa do time e um sorriso de orelha a orelha.
Antes de tomar o meu primeiro gole, o Virsão me perguntou:
— Como é, cara, assistiu ao jogo?
Com cara meio sem graça, respondi:
— Mais ou menos...
Não deixaram nem eu completar a frase. Espanto geral na mesa.
— Como assim, rapaz? Você saiu daqui só para ver o jogo. Sua TV quebrou?
— Não — respondi meio sem jeito — minha mulher achou de discutir a relação bem na hora da partida.
Um silêncio caiu sobre a mesa.
É em momentos como esse que a gente sente como é importante ter amigos. É nessas horas que a solidariedade e a compreensão humana se apresentam de maneira sublime. Um simples silêncio faz com que nos sintamos valorizados, queridos, importantes.
O Edson foi o primeiro a falar:
— Caramba, o que houve? Você não viu o gol do Ganso? O gol do Robinho?
— Deu para ver, o bicho não foi tão feio assim. O segundo tempo eu consegui assistir.
— Menos mal — falou alguém meio cabisbaixo.
— Isso é conversa sua — disse o Roberto — você está querendo se safar porque no primeiro tempo o teu time não jogou nada!
Mas, pela minha cara, a turma sabia que realmente eu tinha passado por um grande sofrimento. Cada um deles, em uma ocasião ou outra, já tinha enfrentado algo semelhante.
— Você tinha aprontado alguma? — perguntou alguém.
— Não faço a mínima. Até agora não tenho certeza por que a mulher estava tão brava. Confesso que só não joguei o micro-ondas na cabeça dela porque o aparelho é novo e, além disso, estava preso na parede.
— E esse galo na sua cabeça, aliás, dois galos?
— São consequências — respondi outra vez meio sem jeito — na manhã seguinte eu tentava me lembrar o porquê de tanta confusão e não havia meio de conseguir. Aí perguntei bem de mansinho:
— E aí? Ainda está muito brava?
Ela ficou em silêncio. Continuei:
— Ajuda se eu disser que o Santos ganhou de três a um?
— Toimmmmm — completei — ela atacou o rádio-relógio na minha cabeça com tamanha fúria que fez este galo do lado direito e acordou o cachorro do vizinho, que não parou mais de latir.
— Puta que pariu — disse o Virsão — e o galo do lado esquerdo?
— É que eu tentei consertar e perguntei se amenizava ela saber que o Robinho fez o terceiro gol encobrindo o goleiro. Dessa vez — continuei a narrativa — o rádio-relógio se espatifou do lado esquerdo da minha cabeça.
— Cara, você me desculpe, mas sua mulher não tem o mínimo de sensibilidade.
— Eu sei, eu sei...
O Roberto, que vez por outra lê uns livros espíritas, completou:
— Isso é algum carma que você tem. Vai tomar uns passes. Ninguém merece uma mulher com tamanha falta de compreensão.
Campinas, 24 de maio de 2010
publicada tambem no blog: https://nicolasalsan.blogspot.com/
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 30/01/2026
Alterado em 07/03/2026