Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
Músicos 🟡③
O Chico Buarque, até onde eu sei, é arquiteto. Talvez não tenha concluído o curso, mas pelo menos teve noções de arquitetura. Certamente vêm daí suas composições bem elaboradas e precisas.

            O João Bosco é engenheiro. E este concluiu o curso com certeza. Isso também explica suas interpretações tentando trazer para o mundo da música os sons da construção civil, tais como o som de tijolos caindo, de andaimes que se desprendem do sétimo andar ou de mexer em massa de cimento, que dariam qualquer coisa como: bidigui bidigu bereguedê, birigudu birigudu birigudu...

            Com esses sons, ele tenta trazer a atmosfera, o clima, o espírito do mundo da engenharia para o delicioso mundo musical.

            Agora, cá para nós, o Djavan, bem... O Djavan tem que ser médico. Não consigo ver outra formação para o Djavan que não seja a medicina, com pós-graduação na Grécia e PHD na Arábia. Acho que os árabes escrevem da direita para a esquerda; se não for assim, certamente foi em algum país desse naipe que o nosso Dr. Djavan lapidou o seu curso de medicina.

            Veja bem: caso o Djavan não fosse médico, todos entenderiam suas letras. É sabido por todos que ninguém entende letra de médico — e nem letra do Djavan. O pior é que nem mesmo os médicos entendem as letras do Djavan.

            Outro dia procurei um médico, meu amigo, formado pela modesta Unicamp e, esperançoso, mostrei a letra:

            “Místico clã de sereia,
            Castelo de areia
            Ira de tubarão, ilusão.
            O sol brilha por si.
            Açaí, guardiã,
            Zum de besouro, um ímã
            Branca é a tez da manhã.”

            O meu amigo olhou, falou que já tinha enfrentado o problema antes e não tinha achado solução. Arriscava-se a imaginar qualquer coisa como um romance entre uma sereia e um tubarão, que se encontravam em um castelo místico, em cujo interior tinha um besouro que, com seu zum, interrompia o papo dos dois.

            Não me convenceu e, também, não me pareceu muito convencido.

            Esses médicos são terríveis. Um não entrega o outro de jeito nenhum. Acho que, se os políticos tivessem a ética dos médicos, nunca haveria um escândalo, pois ninguém entregaria ninguém.

            Procurei um farmacêutico. Todo mundo sabe que farmacêutico entende letra de médico.

            O cara olhou, olhou, coçou a barba, pôs a mão na cintura e, depois de um longo tempo, me perguntou:

            — Qual é o seu problema?

            — Como assim? — perguntei.

            — O que você tinha quando procurou o médico?

            Desisti. Peguei minha letra e fui embora derrotado.

            Aí resolvi procurar o Wirsão. O Wirsão é entendido de música e de letras. Outro dia estávamos ouvindo os Beatles e eu tentava, com o meu terrível inglês, entender o que o “fab four” cantava, e ele me disse para esquecer isso, porque aquele trecho era cantado em alemão.

            Como eu conhecia a música há quase dois séculos e nunca tinha percebido — e, confesso, até hoje, mesmo depois de ele ter falado, ainda tenho dificuldade para perceber que estão cantando em alemão — achei que ele era a pessoa indicada para o caso.

            Mostrei o papel e disse:

            — E aí, Wirsão, o que o homem tá dizendo aí?

            O Wirsão olhou, tomou um gole do quinto Red Label e disse:

            — Cara, isso é coisa de jazzeiro. Tem a ver com a música “Qualquer Coisa”, do Caetano, quando ele diz: “nem a sanha arranha o carro nem o sarro arranha a Espanha”. Entende?

            Fico olhando para a cara do Wirsão, penso que bebi pouco, tomo também mais um gole de Red Label e digo:

            — Mais ou menos.

            Ele continua:

            — É algo semelhante a “esse papo seu já tá de manhã, sou o seu bezerro gritando mamãe, mexe qualquer coisa dentro, doida...”

            — Okei, okei — digo, interrompendo a explicação do Wirsão. — Vamos chamar o garçom, que estou achando este uísque meio aguado.

Campinas, 30 de novembro de 2005

publicado tambem no blog:  https://nicolasalsan.blogspot.com/
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 29/01/2026
Alterado em 07/03/2026
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