PÁSCOA, PRAIA E CRIANÇAS 🟡①
Resolvemos passar os feriados de Páscoa na praia e, tentando causar uma impressão de avós tradicionais e zelosos, levamos conosco a Lira e a Jussara, nossas netinhas de cinco e dois anos.
Ao chegar no apartamento, depois de três horas de viagem e um trânsito pesado em São Paulo, preparei uma merecida dose de uísque e sentei no sofá enquanto a Rose trocava as crianças.
Doce ilusão.
Quando as meninas se viram de biquíni, não houve mais meios de segurá-las. Tivemos de correr para a praia na mesma hora e do jeito que estávamos. A Rose sem ao menos fazer um inocente xixi e eu com o uísque em um copo de plástico, acompanhando as tiranazinhas para o mar.
Já sob o guarda-sol, a vovó saiu para o xixi e eu fiquei olhando as crianças. Encontrei um velho conhecido e, nos exatos quarenta segundos que gastei para cumprimentá-lo, alguém já me chamou às pressas, pois a Jussara se dedicava a acabar com o Guarujá comendo, com uma colher de plástico, toda a areia da praia.
Depois da praia, exaustos, passamos no mercado para abastecer a casa. Coloquei as duas crianças dentro do carrinho e, enquanto a Rose ia trazendo as compras, fiquei entretendo as meninas e, por algum motivo, lembrei-me do Torpedão.
Torpedão é o nome do personal training que contratei para me pôr em forma. O cara é um maldito torturador e, antes, durante e depois dos treinos, fico sempre arquitetando maneiras de matá-lo. Já pensei, na hora da corrida, em empurrá-lo para baixo de um caminhão. Outras vezes tive ideias mirabolantes de temperar suas barras de cereais com veneno de rato, mas acho que teria de encontrar veneno de touro para derrubar o cara. Até em faca eu já pensei, mas as que tenho em casa dificilmente furariam o couro daquele maldito.
Pois bem, lembrando do Torpedão, tive uma grande ideia: resolvi correr bastante com as duas crianças indefesas dentro do carrinho, assustá-las ao máximo, fazer manobras bruscas e freadas radicais. Assim, pensei, elas ficariam com medo e poderíamos sentar em algum lugar e descansar.
O tiro saiu pela culatra.
Elas adoraram a brincadeira e não pude fazer outra coisa o tempo inteiro. Passaram a chamar-me de piuí e não me davam um segundo de descanso. O suor escorria pelas minhas faces e elas, impiedosas, ordenavam:
— Vamos lá, piuí.
— De novo, piuí.
E eu desempenhando aquele papel dentro do Pão de Açúcar lotado de pessoas normais que me olhavam como a um retardado mental.
Aos poucos fui achando que eu fazia um mau juízo do Torpedão, achando que ele não era tão mal assim. Depois de uns quinze minutos, o Torpedão parecia-me a mais angelical das pessoas. Tortura mesmo eu estava conhecendo agora.
Depois das mercadorias escolhidas, resolvemos que eu iria para a frente do mercado tomar sorvete com as crianças, enquanto a Rose passava no caixa, que tinha uma fila de mais ou menos três quilômetros.
Mas nada é tão simples quando aquelas duas estão presentes.
A Jussara agarrou um pacote de “salgadinho” e não largava de jeito nenhum. Queria a todo custo sair com ele do mercado, o que me obrigaria a enfrentar a fila do caixa. Usei todos os argumentos racionais possíveis, mas ela parecia não ouvir e mantinha os olhos vidrados no tal “salgadinho”.
A Lira, solidária à irmã, aguardava o desfecho da confusão de olho em um ovo de Páscoa.
Fui obrigado a usar força bruta e, com a Jussara no colo protestando violentamente, procurei sair do mercado.
Para mostrar poder, a menina tentou suicidar-se pulando de cabeça do meu colo no chão. Lembrei dos palestinos suicidas e fiquei pensando que, se ela era capaz de suicidar-se por um salgadinho qualquer, do que seria capaz sendo algo mais importante, como uma mamadeira ou um pedaço de chocolate. Confesso que tremi ante a determinação da pequena terrorista.
Finalmente escolhemos três casquinhas e nos sentamos para tomar o sorvete.
Enquanto eu ainda me ajeitava na cadeira, ouvi a voz das duas ao mesmo tempo:
— Vovô, deixa a gente experimentar o seu.
Não pude mais tomar sorvete. O meu foi, aos poucos, sendo experimentado... experimentado... até terminar.
Quando tentei provar o delas, fui sumariamente impedido, o que causou espanto nas pessoas próximas, que me olhavam com expressão de horror, pensando que eu tentava assaltar as crianças.
Algumas, que já me conheciam da hora do piuí, cochichavam coisas entre si e me olhavam ameaçadoramente.
Derrotado, acabei por desistir do sorvete.
A Jussara, enfastiada e cheia do meu sorvete, jogou o dela fora e, quando me distraí, fui avisado por alguém que a menina estava lambendo o chão.
Era verdade.
Ela não quis o sorvete apenas enquanto estava no copinho. Quando ele estava no chão, arrependeu-se, entendeu que agora estaria com um gostinho especial e, sem titubear, lambia o sorvete, o chão, a sujeira, tudo.
Dormi, ou talvez tenha desmaiado sentado no sofá, depois de assistir à Jussara comer metade de um ovo de Páscoa mais ou menos do tamanho do Maracanã e esfregar a outra metade por todos os móveis, paredes e até na minha careca.
Pela manhã, acordei com uma forte dor no peito e terrivelmente sufocado. Apavorado, achei que estava tendo um infarto e tentei me levantar às pressas para chamar a ambulância.
Nada de infarto. Quem dera...
Eram as meninas com seus respectivos baldinhos e brinquedos de praia, acampadas sobre o meu peito, meu nariz, minha consciência.
— Vovô, já tá na hora da praia...
E lá vai o vovô, feliz, começar tudo de novo.
Campinas, 12 de abril de 2004
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Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 28/01/2026
Alterado em 07/03/2026